Frei Rogério: o Shitake da paz

No último fim de semana tive a oportunidade de estar perto de um trecho da história mundial. No sábado, em visita a pacata cidade de Curitibanos, onde moram os amigos Vanessa e Ricardo, fui guiado até eles para outra calma e linda cidade, Frei Rogério, mais precisamente na colônia japonesa de Celso Ramos. Ali não só vivem imigrantes japoneses que na década de 60 aportaram no Brasil e que vivem a base da agricultura mas um pedaço triste de um capítulo a ser lembrado com certo respeito. Ali reside a família do Sr. Kazumi Ogawa.

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Kazumi vivia no Japão e todos os dias pegava uma embarcação que o levava da zona rural da cidade até a sua escola. Na fatídica manhã de 9 de agosto de 1945, com 16 anos de idade, Kazumi se atrasou e perdeu a balsa para Nagasaki, momentos antes da explosão da segunda bomba da Segunda Guerra Mundial sobre a terra do sol nascente. Seu Kazumi viveu até os 83 anos, completos ano passado, quando faleceu vítima de um infarto.

shitake-propriedade

Em Frei Rogério também reside o seu sobrinho, o nissei Koichi Ogawa. Sujeito calmo e de poucas palavras porém muito hospitaleiro e simpático nos mostrou a sua propriedade, bem como funcionam os processos do seu crescente negócio: a produção de pêras japonesas e os cogumelos shitake. Pouco nos aprofundamos nas pêras que ainda estavam pequenas e só serão vistas em março do ano que vem, confesso que estava ali pra conhecer um pouco mais do segundo cogumelo mais consumido no mundo e originário do leste asiático. O shiitake (shii = árvore parecida com o carvalho, take = cogumelo) é famoso porque além de muito saboroso (no shitake é encontrado o umami, o quinto sabor) o cogumelo é rico em proteínas e bastante recomendado para o controle da pressão arterial e do colesterol.

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A produção de shitake no Brasil começou por volta de 1990, mais ou menos a mesma época em que o pai de Koichi, também sobrevivente de Nagasaki, começou a colher os frutos dessa experiência. Com uma temperatura média anual que não passa de 20 graus em Frei Rogério, as sementes de shitake que chegaram na década de 70, vindas do Japão, encontraram clima e ambiente perfeitos para que começassem a ser colhidos 20 anos depois em maior escala.

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Desde o processo de plantio, feita com as sementes sendo colocadas em pequenos buracos em troncos de árvores mortas e protegidas de contaminações por uma espécie de resina que cobrem seus “ninhos”, até a colheita, se vão pelo menos 150 dias. A umidade e a temperatura ambiente são determinantes neste processo: quanto mais frio e úmido, mais rapidamente o shitake pode ficar pronto para o consumo.

O mercado de Koichi é, atualmente, São Paulo e Curitiba, onde atende diretamente restaurantes, principalmente de culinária japonesa. Pretende entrar em Florianópolis mas encontra um pouco de dificuldade por não ter uma produção tão grande quanto necessitaria.

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A visita a propriedade dos Ogawa me rendeu algumas bandejas de shitake. Enquanto o produto chega nas prateleiras dos mercados da capital catarinense por até 17 reais (bandeja de 200g), comprei diretamente do Koichi por módicos R$6. É isso mesmo, slow food aplicado na prática, talvez minha primeira experiência com ele. Já até fiz a primeira receita com eles, postada aqui no blog há algum tempo, o Kinoko.

O shitake do Koichi é muito mais bonito que os encontrados em supermercados aqui da região. Além disso, têm tamanho uniforme e peso muito similar, o que permite uma certa estabilidade na cozinha. Achei também muito mais saboroso que os já experimentados, além da consistência ser mais firme, diferentemente dos demais com uma textura “molenga”.

A conclusão que chego, a cada viagem interna que faço ao nosso estado, é que temos muitas riquezas ainda, de certa forma, escondidas aos nossos olhos. Muita coisa boa que não chega até aqui em forma de divulgação. Conhecer esses pequenos rincões de história e gastronomia me fazem ter a certeza que este blog irá continuar, pelo menos enquanto eu tiver disposição pra dirigir 500km para rever amigos, parentes e comer bons cogumelos.

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A propriedade dos Ogawa fica na BR-451, que liga Curitibanos à Frei Rogério, uma estrada em bom estado de conservação e com uma paisagem incrível. Não faço nem idéia de como ensinar a chegar lá ou algum telefone para contato, não há referências na Internet. Na hora não sabia que isso viraria um post. Ela fica aproximadamente no KM 22 da rodovia, contando a partir do trevo Lions, em Curitibanos.

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