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Café das Meninas: um excelente prato feito no Estreito

Há alguns meses parei de trabalhar apenas em home office. Mantive em casa meu escritório pra ter a opção de me focar, imergir no trabalho alguns dias do mês, mas precisava de novo da experiência de ter colegas de trabalho, um escritório fora, me arrumar e sair do ambiente em que durmo. Depois de 8 anos neste modelo tão cobiçado mas muito supervalorizado, estou novamente num ambiente corporativo.

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Uma das prerrogativas de se trabalhar no modo tradicional é almoçar fora de casa quase sempre. E com isso o velho dilema de enjoar dos buffets, das comidas que não se parecem com a sua, de escolher um lugar e preencher um cartão fidelidade onde comprando 10 almoços ganha mais um. Mais do mesmo quase sempre.

Ontem estava caminhando pela Fúlvio Aducci e relembrei do Café das Meninas. Eu nunca havia entendido muito bem do que se tratava, embora o nome seja meio óbvio. Funcionava o dia todo?  Servia o quê? Só o conhecia de passagem e geralmente estava fechado nos horários em que o via. A Michele, proprietária da casa e quem atende no caixa, tentou me explicar, mas eu só entendi mesmo como funciona agora: abre das 11h ás 14h30, somente pra almoço ou um café espresso. Simples assim.

Simples também é o cardápio: todos os dias uma opção diferente em forma de prato feito, menu executivo, ou como vocês costumam chamar um prato servido pronto. Na terça passada eles serviram Virado a Paulista, por exemplo, além de grelhados que estão sempre disponíveis (bovino e frango).

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Dia destes quando almocei com meu sócio Gilberto, também conhecido nas adjascências como Homem Planilha, o prato do dia era Bife Acebolado. E este foi o pedido. Bife Acebolado, acompanhado de batatas fritas, arroz (escolhi o integral mas dá pra pedir o arroz branco) e farofa.

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Bife macio, sabe? Grelhadinho de respeito, com a cebola no ponto certo. Como disse, simples, mas uma comida muito saborosa. O fato de a carne ser feita na hora e servida juntamente com o arroz e os demais componentes do prato fazem toda a diferença.

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Mas não é só isso. Os R$18 que você paga no almoço ainda lhe dão direito a um buffet de saladas e a uma panela de barro ostentando um feijão muito gostoso.

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O interessante é que você pode ir servir uma salada, exatamente do jeito que eu gosto de comer salada, antes do carboidrato e da proteína, enquanto seu prato é feito na hora. No dia as opções eram estas da foto. E tinha macarronese! Macarronese é tipo aquele abraço de mãe em forma de comida, sabe?

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O ambiente é muito simpático. Acolhedor. Aconchegante. Não tem aquele cheiro de comida sufocante como nos demais restaurantes de almoço da região nem tampouco te expulsa assim que você termina. Dá pra tomar um espresso se você tiver com tempo e vontade.

O atendimento é igualmente excelente. Quem nos atendeu o fazia de forma alegre, esforçada, toda a experiência foi perfeita. Pode não parecer nenhum prodígio pela simplicidade da comida, mas engana-se quem acha que um prato feito de qualidade envolve pouco esforço e esmero no preparo. Vai rodar os restaurantes por aí pra tu ver!

Mais que recomendo.

Café das Meninas

  • Rua Fulvio Aducci, 756. Estreito. Florianópolis.
  • (48) 3207-8850
  • Aceita cartões

 

 

Spice Garden: a incessante busca pelas especiarias

As viagens marítimas de Portugal em busca das especiarias indianas acabaram dando mais resultados que simplesmente diminuir o custo e os intermediários dos produtos que buscavam abastecer o velho mundo. Como a Garmin ainda não havia sido fundada naquela época, e talvez pelo excesso do vinho do Porto consumido dentro das naus, quando deveriam apontar as embarcações rumo ao Cabo da Boa Esperança bons (ou maus) ventos os faziam atracar na América. Foi assim com Américo Vespúcio, Vasco da Gama, Cristóvão Colombo, Pedro Álvares Cabral… Esse último até conseguiu dobrar o Cabo mas o entreveiro foi tão grande deve ter se arrependido. A história esqueceu disso por um bom tempo.

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A grande magia da globalização é que hoje a Índia vem até os portugueses. Ou melhor, no nosso caso, vêm até os descendentes da colônia lusitana, numa cidade onde o tempero parece ser escasso e as especiarias completamente ignoradas.

Pra comer no Spice Garden Indian Cuisine não é necessário ser muito resistente à pimenta. Todos os pratos têm níveis de picância que são escolhidas na hora do pedido: fraca (nenhuma pimenta), média e forte. Já conhecia a casa e sabia que a intensidade média era punk pro meu paladar, pedi um meio termo entre o fraco o médio e fui atendido. E gostei muito do que experimentei.

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A experiência começa num ambiente muito bonito. Simples, sem aquela ostentação que os restaurantes de culinária do sudeste asiático geralmente apresentam. É uma casa grande, muito bonita e iluminada, aconchegante e acolhedora.

A casa não tem garçons, apenas uma maitre e a cozinha. E o atendimento flui de forma excelente, sem problemas de serviço, erros de pedidos ou qualquer transtorno pra quem lá busca um jantar tranquilo.

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Começamos o jantar com as entradas. Escolhemos o House Special Platter, que é o prato especial da casa com uma combinação de pequenas porções de todas as entradas oferecidas. Registre-se que acho maravilhoso quando uma casa oferece isso. Você vai pela primeira vez e experimenta de tudo um pouco, nas próximas você já sabe como quer iniciar o seu jantar.

Ele é composto por Vegetable Samosa e Beef Samosa (pastéis crocantes recheados com legumes e carne, temperados com as especiarias da casa, e servidos com shutney de manga; Spice Garden Mixed Vegetables, que são vegetais variados temperados e fritos; O Keema Naan, o pão tradicional indiano com carne, gengibre e coentro. Acompanha também um molho de iogurte.

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O prato é recomendado para duas pessoas e como estávamos em três, também pedimos uma porção extra de Beef Samosa. Mais pasteizinhos crocantes recheados de carne. Mais molho de manga. Mais amor.

Sempre exalto aqui a vantagem de ter amigos que adoram comideria. Não o blog, mas o ato de comer bem. Eles pedem pratos diferentes uns dos outros para que todos experimentem um pouco de cada. Foi o que aconteceu.

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A Cátia Andressa (registre-se aqui que o Comideria está bastante feliz pela presença neste review e pelo seu retorno à Ilha de Santa Catarina) é uma dessas e pediu um Tandoori Shrimp. Camarões levemente picantes e assados no forno Tandoor (o forno tradicional indiano), guarnecido com arroz e molho de iogurte. Os camarões são bem crocantes e bem temperados, sequinhos, sem aquele excesso de gordura comum dos que são fritos.

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A Michele Xavier (registre-se aqui que o Comideria está bastante feliz pela presença no review e pelo início das obras da sua casa, a famosa Minha Casa Container) pediu um Beef Curry. Tal qual o original, o Beef Curry do Spice Garden tem o molho feito com cebola, alho, gengibre, iogurte e especiarias indianas. Novamente recomendo: se você não é resistente à pimenta, peça o fraco. As especiarias já têm o dom de deixar a comida bastante saborosa e com uma leve picância do próprio gengibre, por exemplo.

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Depois de dar uma garfada no prato das gêmeas mais glamurosas da cidade, veio o meu: Tandoori Chicken. Eu sou extremamente viciado no Tandoori (um mix de temperos que é vendido no Mercado Público de São Paulo, de cor alaranjada) que uso bastante para temperar o frango antes dos preparos que vão caldos/molhos. É claro que não tenho um Tandoor em casa como lá no Spice Garden, e por isso resolvi experimentar o deles. É divino. Primeiro que o prato é feito com a coxa e a sobrecoxa da galinha. Não há nada mais frustante que comer pratos bastante temperados com o peito do animal. Nada mais seco e sem gosto. Segundo que o tempero vem na medida e acertei em aceitar a sugestão da maitre de degustá-lo na inteisdade “fraco à médio”. Nem a ausência de pimenta do fraco, nem o punk-rock do médio. Pimenta na medida, fazendo o paladar explodir em sensações.

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Uma outra dica se você é fraco pra pimenta como eu sou (ou era, pois tenho me esforçado): água, vinho, refrigerante, nada disso ajuda a dissipar aquela garfada mais generosa de ardência de pimenta. Há no cardápio um bebida chamada Lassi, que é uma batida de iogurte e leite com frutas. Há a opção salgada, mas recomendo a com frutas pra amenizar o seu paladar em caso de extrema ardência. Eu escolhi hortelã pra não ficar doce demais. A única bebida que consegue absorver a pimenta do seu paladar é o leite, então se é a sua primeira vez, peça Lassi e deixe ali pra algum enrosco.

E a aventura não parou por aqui. Ainda tem as sobremesas. Experimentei duas.

Primeiro o Kheer, o tradicional pudim de arroz indiano, que leva leite, água de rosas e cardamomo. Lembra bastante o arroz doce, embora bem mais aromático e rico em sabores. Cardamomo é vida.

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Depois o Gajar Ka Halwa. Não sei nem pronunciar isso, mas estava muito saboroso. Fiquei com um pé atrás quando soube que a sobremesa era a base de Cenoura. Cenoura, leite e cardamamo, veja só. Ela também recebe uvas passa que dá o tom adocicado. Vale muito à pena experimentar, é uma sobremesa diferente. Não espere aquelas sobremesas irritantemente doces, de travar a boca de tão açucarada.

O preço é bastante honesto. Tendo em vista o que se cobra no mercado local, digo que chega a ser muito barato. Cerca de R$60 por pessoa (fomos em três) pra sair de lá muito satisfeito com a comida e a experiência como um todo.

Se os portugueses cruzaram o violento Oceano Atlântico em busca de especiarias, você pode ir até a SC-401 fazer o mesmo.

Spice Garden Indian Cuisine

  • Rod. SC-401, 7500. Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis.
  • (048) 3238-2170
  • Aceita cartões
  • Estacionamento

Kitchenlog – Arroz Carreteiro

Contar a história do Arroz Carreteiro é remontar um quebra-cabeça de um bom pedaço da culinária não só do Rio Grande do Sul, mas de Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Este imenso corredor que foi aberto pelos tropeiros que levavam gado e outras feitorias para o comércio em Sorocaba cheirava a guisado de charque, que era o jeito mais eficiente de se conservar a carne naquela época, e tinha o ronco do mate e do Carreteiro fervendo numa panela como trilha sonora destas tropeadas.

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Decidimos fazer a receita deste prato o mais tradicional quanto possível. Não por simples purismo ou algum atavismo perdido nesta epopéia gauchesca, mas pra tentarmos resgatar o cerne do sabor que os carreteiros degustavam naquela época. Arroz, charque, cebola, alho, sal e pimenta. Linguiça foi de bônus mas não demorou também pra ser incorporada ao prato com a quilometragem das Carretas.

Cada um prepara do seu jeito, seja com sobras de churrasco, com carne fresca, com frescal que é, resumidamente, um “meio charque”. O nosso tem cheiro de galpão, de mangueira e da poeira dos imensos corredores pisados pelos tropeiros.

httpv://www.youtube.com/watch?v=Cgz4dLXox0M

O segundo episódio do Kitchenlog do Comideria é sobre ele: Arroz Carreteiro. Espero que gostem, curtam, compartilhem e assinem nosso canal porque 2015 está só começando!

Costelão do Gaúcho 24 horas: toda cidade precisa ter um

O que pode querer da vida um homem cuja cidade oferece um restaurante que serve costela assada na brasa, por um gaúcho, 24 horas por dia?

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Com essa indagação começo este post em que falo da minha última visita à capital do Paraná. Uma visita rápida, a verdade seja dita, mal consegui visitar todos os restaurantes que gostaria. Mas com certeza os 800 quilômetros rodados teriam valido a pena simplesmente por conhecer esta casa que agora relato.

Não é fácil estacionar. O restaurante vive lotado, fato. Principalmente nas horas comuns de funcionamento, almoço e jantar. Já havia tentado atracar por lá no sábado, quando cheguei em Curitiba, mas foi só no caminho de volta no domingo que conseguimos parar, após duas ou três voltas no quarteirão, para finalmente conhecê-lo.

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O restaurante não tem luxo. Uma casa de esquina com uma churrasqueira enorme dividida entre as costelas prontas, as que estão quase prontas para o próximo turno e as que só serão servidas na noite e madrugada. Algumas mesas individuais, a maioria delas são coletivas e democraticamente todos dividem o espaço. A fumaça e o cheiro de churrasco toma conta não só do lugar mas como de toda a redondeza. Se a história de que podemos identificar um gaúcho apenas pela fumaça do seu churrasco é verdadeira, neste caso podemos achar o Hauer, bairro curitibano, somente pelo faro.

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A comida é boa. A costela fica assando por horas e horas até que esteja no seu melhor momento. Na mesa são servidos pratos como arroz branco, galinhada, salada de maionese, salada mista de conservas e batata chips. Em seguida o garçom já te traz uma travessa com linguiça, galeto, carne suína e, claro, a Costela bovina.

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O Costelão, como disse, é simples. Assim como simples é o seu preço. Módicos, irrisórios, ignoráveis 27 reais para comer tudo isso, à vontade, podendo repetir quando quiser.

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Mas além disso tudo é preciso ressaltar, se ainda não ficou claro: você pode chegar a qualquer momento do dia. Pode chegar tanto no almoço e no jantar, pode chegar pro café da tarde, pode sair da balada e ir comer um belíssimo assado de matambre. Pode escolher almoçar no café, pode fazer o desjejum ainda na madrugada, pode, enfim, comer costela a qualquer hora. Isso não tem preço. Não há nada que pague essa sensação de liberdade de gostar da melhor carne que uma Rês vacum pode fornecer ao humano.

Por um mundo onde conste no cálculo do IDH de uma cidade a existência ou não de um Costelão do Gaúcho 24 horas. Vamos fazer uma petição!

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ATUALIZAÇÃO: Na quinta-feira, dia 4 de dezembro de 2014, um leitor do Comideria esteva em viagem e fez uma parada Curitiba para comer no restaurante. Chegando lá, deu com a cara na porta. Não havia sequer um aviso do motivo. Fato é que a casa anuncia que não fecha nunca, no próprio site consta que “funciona de segunda à segunda, 24h”. Feito o registro, certifique-se de que ela estará aberta nos horários menos comuns antes da visita.

Todas as fotos deste post são de autoria do nobre co-fundador deste blog, Everton Veber.

Costelão do Gaúcho 24 Horas

  • R. Júlio César Ribeiro de Sousa, 627. Hauer. Curitiba – PR
  • (41) 3377.2704
  • Aceita cartões: sim

Bar do Vadinho: não é manezinho quem nunca comeu lá

Nove em cada dez pessoas que me falam sobre o Bar do Vadinho dizem que o lugar é simples. Simples e saboroso. Não é que o restaurante seja simples. Ele só não tem a mania de sofisticação e grandeza que outras casas têm pra trazer a França, Itália e qualquer comida contemporânea para o seu cardápio. Aliás, o Vadinho não tem cardápio. Um restaurante que não tem cardápio e lota das 11 às 16h é qualquer coisa que queiramos classificá-lo, menos simples.

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Se você for visitá-lo na alta temporada(15/12 à 15/03) até vai se deparar com algum folheto plastificado mostrando algumas opções como o rodízio de lulas, camarões, alguns peixes diferentes, mas de março à dezembro, quando ele abre apenas aos sábados e domingos, o prato da casa é um só.

Pra entender o Bar do Vadinho precisa-se conhecer o próprio. Vadinho é filho de pescadores e fez desse o seu ofício a vida toda. Cresceu pescando nas águas do Sul da Ilha e aos 17 anos de idade já singrava os mares da Bahia até a Argentina em busca de pescado para a indústria. Durante 30 anos fez desse o seu ganha pão, assim como boa parte dos homens e mulheres da sua localidade. A casa onde hoje está o seu restaurante é da própria família há nada menos que 114 anos. Simples sou eu me mudei ano passado e já quero trocar de apartamento. Simples é esta minha alugada morada que é feita do pior tipo de cimento, a casa do Vadinho é feita pedra e tem como argamassa óleo de baleia, artefato comum naquela época.

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Vadinho anda, se veste e fala de forma simples. Mas não é na simplicidade que sua grandeza se traduz. Em poucos minutos e com uma fluidez de um papo muito envolvente ele linka a mesa ao lado, de um casal de mais idade, frequentadores da casa desde sempre com a nossa. “Hoje é a primeira vez deles aqui”, disse ao casal. “Acho que vão gostar e voltar”. O casal confirmou com a serenidade de quem sabe que o simples legado é maior que qualquer palavra.

Mas vamos falar de comida porque se deixar faço que nem o Vadinho: a tarde passa voando e nem notamos que aguardamos uma hora pra uma mesa, e mais algum tempo para recebermos a comida. Isso mesmo, nem notamos que esperamos quase duas horas desde que chegamos até comermos. A casa enche após ao meio-dia e até as quatro da tarde a concorrência é grande. Tudo ali é feito na hora, absolutamente na hora, não há nada pronto. A bem da verdade nem o peixe está congelado, tudo o que é servido é pescado ali por perto. “Eu tenho uma garoupa ali no freezer há quatro meses. Posso fazer, se alguém insistir. Mas prefiro que vocês comam o que eu tenho fresco, que é melhor e ainda é barato”.

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Como disse no início do post o Bar do Vadinho oferece o “prato da casa”. Esse prato custa R$27 por pessoa e pode ser repetido quantas vezes você quiser, embora eu duvide que com a fatura em que é servido alguém consiga, de fato, pedir mais. Na mesa vem: arroz branco, feijão, pirão de caldo de peixe, batata frita, salada mista, peixe frito em postas, filé de peixe à milanesa e “estopa” de arraia, que é uma arraia desfiada ensopada.

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Não sei se devo falar exatamente de cada coisa que é servida, mas poderia definir como “excelente” todos os ítens. O arroz, bem temperado e preparado; o feijão: sal, alho e só; a batata frita que é batata de verdade e não aquelas congeladas de supermercado. Gostinho de batatinha feita em casa; o pirão tem o tempero da minha avó, comfort food na veia; a tal da arraia desfiada, que há tempos não via em nenhum restaurante ilhéu, mais tradicional impossível, é de comer abraçando o Franklin Cascaes.

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O peixe frito em postas era Gordinho. Temperado com sal e bem frito, sequinho, sem excessos de gordura; à milanesa tem o filé de peixe-espada. Esse não dá tempo de agradecer, elogiar ou abraçar ninguém, é pra lamber o prato.

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Tudo, tudo feito ali é gostoso. Tudo o que o Vadinho oferece tem gosto de Florianópolis, pode-se afirmar sem qualquer dúvida que esta comida é a comida do mané, este é o retrato da nossa terra e da nossa cultura. Sem medo nenhum de errar afirmo que é a cara da cidade. Fora dos holofotes, verdade, mas nem por isso menos autêntico.

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O Vadinho também oferece o seu tradicional pastel de camarão. Assim como o restante da comida, tudo caseiro. A exemplo da batata-frita, o pastel tem gosto de feito em casa, muito bem recheado e bordado de camarão, sem mixarias.

Nada disso era simples. Pode parecer simples porque é o que fomos (eu pelo menos fui) ensinado a comer quando pequeno. Cresci chupando espinha de peixe e farinha de mandioca era ítem indispensável na despensa. Mas nenhum ítem deste prato é simples, é comida feita com a complexidade de uma cultura que levou décadas pra ser moldada. Tradição, jeito de preparar os alimentos, temperos que tomaram muito tempo nas mãos habilidosas das cozinheiras pra ficarem do jeito que estão. Simples é aquela comida pronta, aquele salmão congelado que você come num restaurante de meia pataca e que te cobra um rim. Simples é nossa mania de reduzir o que não é rebuscado.

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Já terminávamos a refeição quando o casal da mesa ao lado passou e perguntou: “o que vocês acharam? gostaram da primeira visita?” só consegui pensar que a vida é muito curta para as novas frivolidades gastronômicas. Aquele casal, assim como eu, dirigiu vários quilômetros de São José até o Pântano do Sul e faz isso com bastante frequência porque eles sabem valorizar o que é bom, simples ou não.

Ao Vadinho, essa figura lendária e folclórica do Sul da Ilha, vida longa para que dê tempo de todos vocês, meus leitores, conhecê-lo e se tornarem assíduos do que julgo uma das melhores experiências gastronômicas que já tive na vida. Simples assim.

Bar do Vadinho

  • Rua Manoel Vidal, 305. Pântano do Sul, Florianópolis.
  • (48) 3237-7305
  • Aceita cartões

Pão-por-Deus: o melhor buffet de sopas está de volta!

Das expressões culturais e artísticas que os colonizadores açorianos nos deixaram, o Pão por Deus é uma das que pouco a pouco vão sumindo do conhecimento popular do ilhéu. Aqui na cidade costumava-se fazer quadrinhas com pequenos poemas, rimados ou não, com os mais diversos intuitos: um recado, uma declaração de amor e até mesmo um desaforo era motivo de se fazer um Pão-por-Deus.

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No centro histórico de São José conheci há alguns anos o Restaurante Pão-por-Deus. Ficou famoso na região que já serviu de passagem para a corte real do Brasil nos idos do século XIX e assim como o antigo Café da Corte, está numa casa centenária no centro Histórico de São José. Nos anos passados alguns percalços na vida dos proprietários fizeram com que a casa não abrisse por um tempo até que em 2013 ela fechou as portas. Tamanha foi a minha felicidade ao saber da sua reabertura que fui ontem mesmo, no seu primeiro dia de funcionamento, reconhecer o lugar.

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O Pão-por-Deus tem o melhor buffet de sopas da cidade. Não há outro que chegue aos pés de todo o conjunto que este lugar ofereça. A refeição começa bem antes da comida, na decoração do restaurante. Como o nome enseja, é um resgate histórico da cultura dos açorianos que desembarcaram na região. Desde as quadrinhas de Pão-por-Deus na parede, até os desenhos das panelas de barro onde você se serve, tudo respira a atavismo e aconchego. Fui um dos primeiros a chegar e o último a sair, tamanho é o abraço do lugar que te faz sentir muito à vontade.

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O buffet funciona assim: você paga um valor fixo (R$28,50) e pode desfrutar de forma ilimitada de todas os 13 diferentes tipos de sopas. Mas já deixo uma dica: se você quiser experimentar mais sabores, pegue um pouquinho só de cada, as sopas são fortes, acabando com o mito de que sopa não enche o bucho.

Sopa de Capeletti
Sopa de Capeletti
Vaca Atolada
Vaca Atolada

É possível que uma vez ou outra mude-se algum dos sabores, mas basicamente os mesmos 13 ficarão até o fim do inverno. São eles: Capeletti, Caldo Verde, Canja, Cenoura com gengibre, Ervilhas, Delícia de ovos, Tomate com palmito, Minestra, Creme de alho, Chilli Apimentado e Legumes. Ainda têm dois pratos que tem bastante caldo mas que não são sopas por definição, mas que também são uma excelente pedida neste inverno: o Carreteiro e a Vaca atolada.

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Escolhida a sua sopa, no buffet ao lado vários tipos de pães, alguns temperados, e tijelas de salsinha picada, queijo parmesão ralado e ovo picado pra você incrementar a sua sopa.

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O Pão-por-Deus funcionará de segunda à sexta-feira (fecha aos finais de semana), das 19h às 23h30 e a partir da semana que vem também servirá almoço.

Fica a sugestão da visita, ótima comida, por um preço honesto, num lugar muito bonito e encantador. Uma excelente pedida neste inverno.

Restaurante Pão-por-Deus

  • Rua Xavier Câmara, 125. Centro. São José/SC.
  • (48) 3247-1101
  • Aceita cartões: no dia da visita ainda não haviam instalad o aparato para aceitá-los, mas durante as próximas semanas implantarão o sistema de cartões.