Arquivo da tag: arroz

Yakibifum – yakissoba com macarrão de arroz

Bifum é basicamente uma espécie de macarrão feito com arroz. Uma massa fina, leve e de fácil cozimento, originária da China. É o que muitos entusiastas da cozinha advjetivam como uma massa versátil por não possuir um sabor muito específico deixando para o preparo e o tempero a definição do seu paladar. O macarrão de arroz, além da oriental, bem usado na culinária vegetariana e celíaca (ele não contém glúten, claro).

Yakibifum - Yakissoba com macarrão de arroz
Yakibifum - Yakissoba com macarrão de arroz

Por ser uma massa que permite uma série de combinações, resolvi fazer um Yakibifum. O nome já é autoexplicativo. A receita é quase igual, só muda a massa usada. E na verdade é mais prático já que o bifum cozinha rapidamente.

Então você pode seguir a receita do Yakissoba em 6 passos da Bianca, postada há alguns meses atrás aqui no blog.

A mudança está no quarto e quinto passo, quando ela lida com a massa. O bifum não tem necessidade de cozimento com o fogo ligado. Você vai ferver a água, desligar a panela e colocar o macarrão de arroz nela. Em dois ou três minutos ele estará hidratado, cozido e pronto para misturar com o restante dos ingredientes.

Simples, né?

 

Galpão Tropeiro: a pura cepa da culinária serrana

Teófilo Schutz era Patrão de Tropa, suas tropeadas traziam o gado de Lages até Taquaras (distrito de Rancho Queimado) onde os comerciantes de Florianópolis iam comprá-los e levá-los até a capital catarinense para abastecê-la de carne. Marcelo Schutz, neto deste grande taura da cultura serrana, decidiu resgatar e armazenar num restaurante a gastronomia da região junto com as memórias da família. Sabendo deste espaço desde o ano passado, resolvi aproveitar o domingo ensolarado para um passeio em Rancho Queimado/SC e conhecer este lugar.

Restaurante Galpão Tropeiro
Restaurante Galpão Tropeiro

Chegando no Restaurante Galpão Tropeiro, aberto em 2000, você já se depara com um fogo de chão e alguns bancos de madeira pra dar uma aquecida do friozinho que paira na serra e tomar aquele chimarrão cevado pelo proprietário. Além disso, o restaurante conta com um espaço literário que prestigia autores da região, uma coleção de latas de cerveja e canecas de chop que deve beirar as mil unidades, exposição de fotos da região, quadros da temática do tropeiro, peças antigas do homem campeiro como alambiques, engenhos e selaria.

Roda de Fogo de Chão
Roda de Fogo de Chão – foto: Luiza Freitas
Ambiente
Ambiente – foto: Luiza Freitas

O buffet de pratos típicos é montado no próprio fogão à lenha onde são feitas as iguarias campeiras, em panelas de barro. Pratos como Quibebe, Feijão Tropeiro, Matambre Recheado, Arroz de Carreteiro, Farofa de Pinhão, Língua, Aipim, Galinha Caipira, Quirera são muito bem preparados pela família do Marcelo e impressionam com o sabor. Tem também um buffet de saladas com algum toque germânico e, não fosse suficiente, num disco de arado é servidor um excelente Entreveiro, o carro-chefe da culinária serrana, prato a base de pinhão e carnes suínas e bovinas.

Entreveiro
Entreveiro
Buffet com os pratos típicos no fogão à lenha
Buffet com os pratos típicos no fogão à lenha
Buffet de saladas
Buffet de saladas

Faltam-me adjetivos e os verbos já me parecem insuficientes para descrever o quanto fui bem tratado, atendido e acolhido por este lugar. De fundo, o violão gaúcho do mestre da guitarra criolla e meu amigo Marcello Caminha fazia acompanhamento. Pra minha surpresa até a música ambiente estava do meu agrado.

A geléia de morango é uma delícia
A geléia de morango é uma delícia

Dentro do Galpão Tropeiro ainda existe um pequeno “bolicho” onde você pode levar produtos típicos da região como cucas, geléias e licores (os melhores são de morango, Rancho Queimado é conhecida pela festa do Morango), pães, roscas…

Visual da frente do restaurante
Visual da frente do restaurante

A paisagem bucólica e o vento matreiro que assobiava naquela coxilha, aliando o ambiente acolhedor e a comida apetitosa, me fizeram ter um domingo muito, mas muito agradável. De longe, sem sombra de dúvidas, valeu os 160km dirigindo ida e volta pra conhecer um pouco da história do nosso povo e comer a melhor comida que eu já provei na vida.

Obrigado ao Marcelo e sua família pela recepção, com certeza voltarei mais vezes!

Dados do Restaurante Galpão Tropeiro:
Rua Romanos Goedert, 99. Taquaras – Rancho Queimado/SC.
Telefone: (48) 3275-1163
Site: www.galpaotropeiro.com – Foursquare

Para mais fotos do lugar, visite nossa fanpage no Facebook!

Arroz de Carreteiro – das carretas ao seu prato original e modificado

Depois do churrasco, não creio que haja outro prato tão tradicional no Rio Grande do Sul quanto o arroz de carreteiro. Ele tem esse nome porque há algumas décadas quando se faziam as carreteadas (cargas de mercadorias de uma cidade pra outra), não existiam, obviamente, recursos pra manter alimentos perecíveis por tanto tempo. O charque, carne salgada e seca à sombra e vento, era a forma que se tinha pra conservar a carne. No caminho, se conseguia arroz e algumas especiarias e essa mistura dava origem então ao prato principal dos carreteiros.

Nobre cardápio crioulo das primitivas jornadas,
Nascido nas carreteadas do Rio Grande abarbarado,
Por certo nisso inspirado, o xiru velho campeiro
Te batizou de “Carreteiro”, meu velho arroz com guisado.
(Arroz de Carreteiro – Jayme Caetano Braun)

Daqui pra frente vou ensinar a simples receita do Arroz de Carreteiro, e que tal dar play numa música regionalista desse povo que inventou o prato pra entrar no clima da receita?

httpv://www.youtube.com/watch?v=Wi_ORewoMDs

Quais os ingredientes de um carreteiro?

Há divergências. Em algunas fontes, não necessariamente bibliográficas, constatamos que o carreteiro original tinha os seguintes ingredientes:

  • 1kg de Charque gordo – carne de segunda ou terceira, salgada e seca à sombra;
  • 1/2kg de Arroz;
  • 1 Cebola grande (ou pimenta);
  • 5 dentes de Alho.

O modo de preparo:

Arroz de carreteiro tomando forma - imagem do amigo @Noel_Guarany
  • Dessalgar o charque na água quente, numa panela de ferro, com duas “lavagens”
  • Reservar a primeira água do dessalgamento para o posterior cozimento
  • Picar uma cebola grande e os dentes de alho, refogar com o charque também picado na panela de ferro
  • Colocar o arroz e dar uma “chapada”, uma pequena e rápida fritada nele nesse refogado
  • Adicionar a água do dessalgamento ainda quente para o cozimento final.
Trempe - suporte para a panela

 Levando-se em consideração de que se utilizavam panelas de ferro e “trempes” aquecidas com lenha de madeira bruta, o cozimento era um tanto quando rápido e consistente, o que dava uma uniformidade no preparo do prato.

De lá pra cá, o que mudou no carreteiro?

Arroz: alguns preferem usar hoje substituir pelo arroz branco.

Charque: hoje se utiliza carnes de primeira, como o coxão mole, por exemplo, ou ainda se faz uso do frescal, que ao invés de um ciclo completo de “secagem”, fazem a famosa meia-cura. Não é tão salgado e ao invés de secar na sombra, é curado no gelo. Alguns aproveitam as sobras de churrasco (daí a entrada da linguiça no carreteiro atual). Há também aqueles que gostam de fritar a carne com cubinhos de bacon para a famosa “puxada” do arroz.

Uma outra possibilidade e que também fica gostoso, é a linguiça crua (no caso de não fazer o carreteiro com sobras de churrasco) cortada em pedacinhos. Ou dá pra tirar da tripa e colocá-la pra fritar junto com o charque na hora de refogar.

Aqui faço um parêntese para um registro histórico, cultural e importante pra entender o que o gaúcho tradicionalista achavava do uso de outras carnes no Arroz de Carreteiro. Jayme Caetano Braun, talvez um dos maiores payadores que cantaram a cultura que o Rio Grande já conheceu, dizia no mesmo poema citado no início do post:

Por isso – meu prato xucro, eu me paro acabrunhado
Ao te ver falsificado na cozinha do povoeiro
Desvirtuado por dinheiro à tradição gauchesca,
Guisado de carne fresca, não é arroz de carreteiro.

Temperos: além dos tradicionais alho e cebola, há quem prefira dar uma cor e um gosto a mais com pedaços de tomates e pimentões.

Complementos: já vi também o carreteiro ser preparado com um toque final de milho verde e cheiro verde, sendo este último o mais comum de se encontrar hoje em dia.

Existe jeito certo e errado de preparo?

Não há jeito dito certo de se fazer um carreteiro. Existe o tradicional, o original, da forma que foi inventado. Mas o gosto varia de pessoa pra pessoa, quis dar estas nuances pra que conhecessem como era feito este prato e qual a importância que ele teve numa determinada classe, época e circunstância das próprias pessoas que inventaram esta iguaria campeira, rude e deliciosa. O que importa é o seu paladar.

E quem vai finalizar este post é o Jayme, da mesma forma que ele finaliza a Payada que dedicou a esta bênção gastronômica deixada pelos carreteiros:

Por isso, quando eu chegar,
nalgum fogão do além-vida,
Se lá não houver comida já pedi a Deus por consolo,
Que junto ao fogão crioulo,

Quando for escurecendo, meu mate-amargo sorvendo,
A cavalo nalgum tronco, escute, ao menos, o ronco
De um “Carreteiro” fervendo.

Bom carreteiro a todos!