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Camarão à Parmeggiana da Cantina Zabot: não sabe brincar, não desce pro play

Quando eu cursei Administração, era um aficionado por entender as lideranças. Aquelas pessoas iluminadas que quando chegam num ambiente são respeitadas, ouvidas, entendidas e com uma enorme capacidade de engajar os seus. Mas ao passo que eu tentava entendê-las nos livros no melhor estilo Quem mexeu no meu queijo? mais me afastava das respostas que eu me fazia. Estas pessoas estão na padaria da esquina, num escritório num quarto andar do Fantastic Office Mega Power ou em qualquer lugar que não tem um Virando a Própria Mesa na estante, me perdoe o Ricardo.

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De uns tempos pra cá comecei a observar o Amauri Zabot, que toca o restaurante que carrega o seu sobrenome, já referência na gastronomia da região. E se eu tenho um ritual de religiosamente chegar ao seu restaurante uma vez por semana, pedir o meu executivo milanesa, uma água com gás com gelo e começar saboreando a refeição pela salada que já é um grande diferencial dos demais, o Amauri também tem o seu. Diariamente ele chega na Cantina Zabot, entra pela porta de vidro, faz o sinal da cruz, cruza o salão e vai até a cozinha até largar um sonoro “bom dia, pessoal!” e depois, de mesa em mesa, cumprimenta aqueles que pagam a sua folha de pagamento, desejando as boas vindas e perguntando se está tudo bem, não importa se você está lá pela primeira vez ou já é um velho conhecido. Feito isso, ele pode ir resolver algum problema ou mesmo tomar a posição de hostess onde na icônica porta de vidro continua a receber quem chega. Não importa se faz chuva, fazSol, é dia útil ou dia santo, ele está lá. E a cordialide junto.

E não é só isso, Zabot é um líder. Ele entende que bronca se dá escondido e elogio se faz em público. Trata bem e com carinho seus funcionários, é correspondido e admirado. Por isso a cozinha sempre funciona, o atendimento é rápido e a comida está sempre ótima. Não me recordo de um dia sequer que eu tivesse comido mal lá dentro.

E foi assim que aconteceu no domingo quando com minha mãe estive pra degustar um camarão, seu carro-chefe que bota inveja na concorrência. Eu já estava na casa quando ele chegou e cumpriu seu ritual enquanto eu cumpria o meu, começando pela salada como mencionei uns dois parágrafos atrás. Ele se benzeu, cumprimentou a casa lotada e já com fila de espera, e se preparou pra mais um dia de trabalho, servindo e liderando um time que joga redondo e dificilmente perde.

Mas vamos falar de comida? Já puxei o saco demais dele.

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Já havia falado aqui sobre meu milanesa favorito, agora falo sobre o camarão. E a primeira dica pra se comer um camarão no Zabot é: vá com fome ou com mais gente. Mesmo as menores porções servem muito bem de 3 a 4 pessoas. A maioria dos pratos vêm nos tamanhos 500, 700 e 1200g. Os 500g de Camarão à Parmeggiana que custam R$110 e, aparentemente, o número assusta, serviram nós dois, sobraram pra janta e tenho a impressão que se congelarmos as sobras almoçaremos até dezembro. É muita comida, mesmo.

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Isso porque além desse camarão ainda vêm os acompanhamentos tradicionais: salada mista, maionese, farofa, fritas, arroz e feijão. Todos os pratos são bem frescos, saborosos e exageradamente bem servidos. No Zabot é assim: não sabe brincar, não desce pro Play.

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Faltou falar o quê? Do camarão? Já disse que é o melhor, não disse? Vamos descrevê-lo: crocante, mesmo na versão parmeggiana e com molho vermelho e queijo, o que em tese murcha o milanesa. Lá não. Vem crocante, saboroso e bem apresentado. Se puxar uma colherada e não rolar o efeito chicletinho no queijo derretido, não tá certo. Pode cobrar.

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O cardápio do Zabot é grande e não dá pra “experimentar um pouquinho de cada coisa”, tática velha de guerra de blogueiro de comida. Mesmo o prato menor, como falei, é um exagero de comida. Faz jus ao lema da casa “Quantidade com qualidade”. Mas você pode ir lá, experimentar o Parmeggiana e depois explorar as mais diversas delícias do cardápio. Vai por mim. E se algo vier errado, não tem erro: O Amauri vai passar na tua mesa e resolver.

Cantina Zabot

  • Av. Leoberto Leal, 157. Barreiros, São José/SC
  • (48) 3240-0436
  • Aceita cartões
  • Estacionamento

Empadas Jerke: um clássico de Joinville

Todo mundo me fala das Empadas Jerke. Todo mundo posta fotos das Empadas Jerke. Todo mundo adora as Empadas Jerke. Por quê eu ainda não conhecia? Precisava ir até Joinville para comê-las.

Até poderia ir em alguma lanchonete do Centro que revenda, poderia comprá-la nos supermercados Angeloni onde ela se encontra disponível numa caixinha de congelados pra assar em casa, mas nunca é a mesma coisa. Se você quer comer alguma coisa, vá no lugar. Sempre. Assim como delivery nunca é igual comer no próprio restaurante, você não tem o forno deles, o clima deles, coisa e tal.

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Então na segunda-feira de carnaval estava entediado, com vontade de comer a tal empada, peguei o carro e fui até Joinville pra isso. Uns me chamam de doido por isso mas o espírito foodie é assim mesmo. Uns viajam pra ver 22 caras correndo atrás de uma bola, outros pra vomitar numa montanha russa no Beto Carrero, eu viajo pra conhecer comidas e restaurantes.

Afinal se a Empadas Jerke existe desde 1922 e desde 1931 é um estabelecimento comercial na João Colin, que custava eu dirigir duas horinhas pra comê-las?

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E lá estava eu, somente eu e minha namorada Fernanda, na Empadas Jerke numa segunda-feira de carnaval. Joinville estava toda fechada, nenhum shopping abriu, nenhuma atração na cidade, somente uma meia dúzia de coisas e as empadas.

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O lugar era bastante diferente do que eu imaginava. Aliás, tudo era muito diferente do que eu imaginava. Até as empadas eram, afinal são feitas com massa folheada ao contrário de uma empada convencional que usa a famosa massa podre (que não é podre). A casa é tipo um bar, com um balcão onde alguns velhos tomavam sua cerveja ou cachacinha, comiam um rollmops e conversavam com o balconista. Ao lado, uma grande estufa com vários salgados e uma infinita quantidade das empadas. E nas mesas éramos só nós comendo as tais empadas.

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A Fernanda, fã desde sempre da iguaria, havia me recomendado a Empada especial (camarão, palmito e azeitona). Eu experimentei a dela porque queria me aventurar em outras escolhas: a de palmito, a super (camarão branco e palmito) e a de camarão.

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Errei, claro, paguei o preço de quem não escuta. A dela estava melhor e fui obrigado a levar umas pra casa pra comer mais tarde (não sei se ficou claro, mas o post que fiz anterior a este, da churrascaria, era a refeição que precedia esta, não dava pra aloprar muito nas empadas).

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As demais achei meio secas e sem gosto, mas a especial dá um banho. Só fica aquele gosto residual de manteiga que a massa folheada tem (e que particularmente eu não sou muito fã), mas é gostosa se você conseguir lidar com isso.

Então fica a dica: se for na Jerke, peça a especial e não teime com sua namorada. Ou comigo, já que está lendo este post.

Você pode gostar ou nem tanto, mas conhecer os clássicos e respeitá-los, ainda mais a prole do Sr. Guilherme e Carlota Jerke que desde o século 20 fazem isso, é primordial.

Empadas Jerke

  • Rua Dr. João Colin, 393. Centro, Joinville/SC.
  • (47) 3422-3739
  • Aceita cartões
  • Estacionamento

 

 

Rancho Açoriano: peixe insosso, conta salgada

Passeávamos pelo Ribeirão da Ilha no domingo em busca de algum lugar pra comer. Entre achados e perdidos, restaurantes que resolveram fechar as portas como o Vila Terceira, onde soubemos apenas in loco do seu encerramento, restaram apenas os já conhecidos para um almoço despretensioso.

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Ainda não conhecia o Rancho Açoriano, uma vez que já havia recebido alguns feedbacks negativos sobre eles, mas precisava ver com meus próprios olhos (e boca) se era aquilo mesmo.

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O restaurante Rancho Açoriano do Ribeirão da Ilha é muito bonito, me impressionei com cada elemento da decoração. Pinturas bonitas nas paredes, iluminação perfeita dos ambientes (salão interno, deck e mezanino) e até os azulejos do banheiro homenageavam nossos colonizadores de forma elegante e simples.

Mas decoração não enche barriga nem agrada o paladar, vamos aos fatos.

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O garçom que nos atendeu já nos alertou que a comida estava demorando cerca de 1h pra ficar pronta, uma vez que a casa estava bastante movimentada. Fiz o meu pedido e também pedi pastéis de berbigão (vôngole, para os forasteiros) de entrada. Não demorou mais que vinte minutos para chegar até a mesa a porção.

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O pastel era saboroso, berbigão bem limpinho mas pouco recheado, quase perdido dentro da massa. O molho tártaro que acompanhava ajudou um pouco no sabor.

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Como cortesia, se você olhar o cardápio atentamente (ninguém avisa), a casa oferece uma dose de cachaça artesanal cujas garrafas recebem o nome do restaurante no rótulo. Se alguém produz uma cachaça boa nessa cidade esse alguém com certeza o faz no Ribeirão!

Mais de uma hora depois, recebemos os pratos. E aí eu fiquei um tanto decepcionado.

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Primeiro porque alguns acompanhamentos, arroz branco e pirão, vieram frios. Como já havia sido um calvário chegar aquela comida, passadas duas horas da tarde, resolvi comer assim mesmo pra poder assistir o Fantástico em casa. A salada era bem boa, higienizada e selecionada.

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Eu havia pedido a Garoupa com Camarão Grelhados e Champignon. Embora decepcionado com o cogumelo que era desses em conserva, afinal se estava pagando nada menos que R$118 num prato pra duas pessoas esperava um cogumelo fresco, o primeiro pedaço da garoupa estava ótima. Eram dois filés e o primeiro pedaço estava com uma crosta levemente crocante e saborosa, bem temperado e agradável (tirando o gosto do vinagre que saía dos cogumelos). Já o segundo pedaço estava totalmente diferente, não deu pra acreditar que foram feitos na mesma hora e pela mesma pessoa. Molenga, gorduroso e extremamente sem sal, precisei pegar um sachê desses que estavam na mesa pra temperar a salada e colocar no peixe. Chego a duvidar se o correto era o segundo pedaço, mais alto e grosso, sem a crocância que eu tanto gostei ou se a primeira impressão era a correta. Fiquei na dúvida, estavam diferentes em textura e sabor.

Vou apostar, numa possível segunda visita, que o segundo pedaço não era padrão.

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O mesmo aconteceu com o prato dos meus amigos, o Congrio Rosa Grelhado Ao Molho Provençal. Um dos pedaços OK, o segundo parecia uma outra comida.

O atendimento era ótimo, embora demorado por conta do movimento da casa. O serviço não dá pra dizer a mesma coisa, visto que era uma correria dentro do salão pra atender todo mundo que dava pra se cansar só de assistir, mas os garçons muito atenciosos e assertivos nos pedidos sempre.

Não consigo acreditar que um restaurante com um ambiente tão lindo e aconchegante, com uma lotação invejável num domingo nublado e frio de Florianópolis cobre tanto e entregue tão pouco, creio que precisarei de uma segunda visita pra confirmar a frustração ou desfazê-la, muito embora fique com bastante medo de pagar R$150 pra ver de novo. Será que eu dei azar?

Restaurante Rancho Açoriano

  • Rua Baldicero Filomeno, 5654. Ribeirão da Ilha, Florianópolis.
  • (48) 3337 0848
  • Aceita cartões
  • Estacionamento: sim

Bar do Boni: boa cerveja e petiscos na beira da Lagoa

Ia começar este post justificando a minha ausência por quase dois meses neste blog, mas é chover no molhado que além dos food trucks das mesmices e hamburguerias que usam o mesmo pão, a mesma carne e os mesmos acompanhamentos de sempre, nada de novo prosperou nesta cidade. Já temos um grande acervo de publicações dos restaurantes que acho relevantes — portanto não dá pra repisar o mesmo rastro, outros ainda preciso visitar e estão na minha lista, mas em resumo minha ausência se deve pela falta de tesão com o cenário gastronômico da cidade neste 2015 de recessão econômica.

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No último domingo, porém, fui conhecer o tão comentado Bar do Boni, cujas fotos do Instagram pipocam a cada fim de semana onde o Sol resolve mostrar as caras na Ilha de Santa Catarina.

O Bar do Boni me deixou com sentimentos confusos, mas no fim das contas uma coisa foi compensando a outra.

Por exemplo: o demorado atendimento era compensado com a rapidez que a comida vinha à mesa. Levei pelo menos 20 minutos pra conseguir pedir uma água com gás (marca Cristalina, com um gosto de plástico irritante) e os petiscos, mas assim que pedi, não demorou os 20 minutos até que começasse a comer.

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A falta de conhecimento do garçom que me atendeu no próprio cardápio, principalmente porque descobri que existia uma cervejaria parceira do bar, a Elementum, somente aos 45 do segundo tempo, quando estava pronto pra desistir da Bierbaum e ficar apenas na água. “Ah, tem uma carta de cervejas, peraí” “Tem essa? Não sei, vou ver” “Quanto custa? ah, é 18, 19… acho que 18! não, 19”. Mas quando chegou a Witbier, a trapalhada foi compensada pelo sabor dessa cervejaria de Novo Hamburgo que ainda não conhecia. Copos adequados, balde de gelo, temperatura e cerveja deliciosa.
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Tudo paga. Couvert da banda, 10% do garçom, R$10 de estacionamento… (tente estacionar na Lagoa em um domingo de Sol, eu te desafio!). A conta que era pra ficar nos dois dígitos subiu logo aos três com tanto custo agregado. De valor agregado só alguns petiscos, a cerveja já citada e a banda, que compensou na sua apresentação. Mike e a Liga tem um som gostoso, os músicos fazendo por gosto e animando a todos com hits do POP nacional e internacional.

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Até na comida havia compensação: o pastel ou era muito seco (berbigão) ou muito molhado (camarão). O pastel de Berbigão tinha que ficar brigando com a areia do pobre molusco, já o de camarão estava saboroso mas com um molho um pouco ralo, fazendo quem come se sujar todo de vermelho claro. Era bem servido, ao menos, matava a fome da espera.

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Em compensação… o camarão ao alho e óleo é um dos melhores que já comi nestas bandas. Bem temperado, dos grados, com alho de sobra pra fazer jus ao nome (parece óbvio mas não é uma regra na concorrência).

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O bolinho de siri tinha gosto pirão. Não consegui identificar o que dava aquele gosto de farinha ao recheio, mas faltava tempero e o próprio siri, que entre um fiapo e outro dava a graça no quitute.

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Já em compensação… a Lula a doré estava ótima. Poucos sabem fazê-la crocante e não borrachuda, poucos sabem fritar anéis de lula sem deixá-la seca ou gordurosa. Uma delícia quando acham o meio termo de textura, sabor e crocância. Acompanhava um molho rosê normalzinho e limões tahiti cortados em fatias, algo que não pode faltar jamais em frutos do mar.

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O certame saiu do empate com a vista privilegiada que tem a casa, à beira da Lagoa da Conceição é difícil sair triste de lá. A vista, as pessoas, o clima de descontração e a energia boa de manezinhos e turistas que frequentam o Bar do Boni deram ao domingo um pouco mais de cor e alegria.

Não acredito que eu seja um fiel cliente por conta dos custos extras que se tem pra ir até lá e encarar o Bar como uma refeição do almoço de domingo. A conta fechou em R$130 (2 cervejas, 1 água, petiscos citados (camarões e lulas eram 1/2 porção) e couvert artístico, mais R$10 por fora pro tiozinho do estacionamento. Mas pra curtir uma noite, ou mesmo uma beberagem com os amigos, já estando na Lagoa, tá valendo. Principalmente se você estiver em ótima companhia!

Bar do Boni

  • Av. das Rendeiras, 2232. Lagoa da Conceição, Florianópolis.
  • (48) 3232-1139
  • Aceita cartões
  • Estacionamento: sim

Careca Petiscos: zeramos São Miguel

“Você entra na marginal da BR-101 onde começa o Balneário de São Miguel, tropeça na primeira pedra após a Casa do Peixe e chegou no lugar”.

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Foi mais ou menos assim que conheci o Careca Petiscos, um pequeno restaurante/bar na beira da única praia quase balneável de Biguaçu após receber indicação de que ali serviria boa comida. Isso porque a pequena casa no estilo residencial que abriga o restaurante tem pouca identificação de que ali serve-se comida, há uma pequena inscrição no portão na lateral oposta um aviso de buffet de sorvetes, e é somente entrando no lugar que vemos algumas mesas, e já saindo da casa pelos fundos temos um deck de madeira e, claro, como não poderia deixar de sê-lo, a própria areia da praia.

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Tudo é muito rústico, desde as mesas, cadeiras até os pratos. É fácil ver uma cadeira “pichada” com corretivo (liquid paper), sabendo que aquilo já pertenceu algumas vez alguma escola, ou mesmo um prato com o logotipo da Pizzaria Vó Luzia, falecida líder no ramo no Kobrasol.

Comecei pedindo bebidas e petiscos. Pedi uma 1/2 dúzia de ostras gratinadas e a mesma quantidade ao vinagrete. Substituímos por mariscos ao sermos informados que não teríamos ostras in natura. Ponto positivo: não tem produto fresco, não vende. Gosto de restaurantes que vendem apenas o que acreditam ser bom.

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As ostras não estavam em sua melhor forma, muito magras e perdidas num mar de molho branco sem muito sabor. Apresentação bonita mas o tempero e os ingredientes deixaram um pouco a desejar (punição pra quem, como eu naquele dia, acha que ostra precisa de alguma cobertura. Ostra boa é ostra crua).

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Já os mariscos estavam saborosos, embora a cara deles não pareçam lá essas coisas na foto, mas o vinagrete da casa é delicioso, assim como os moluscos. Prova de que quem vê cara não vê coração.

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Depois veio o prato principal, que optamos por Camarão à Milanesa. Uma robusta porção do crustáceo mais desejado e supervalorizado por estas bandas, fritos na hora e com a farinha que foi empanado bastante temperada. Isso conta bastante: camarão é uma coisa que por si só não tem muito sabor característico, dependendo da espécie usada. É no feitio que você conhece o cozinheiro e eles estavam deliciosos. Ainda vieram molho de maionese e rosê pra acompanhar e dar aquela caprichada no gosto.

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Este camarão é comumente guarnecido de arroz branco, pirão de peixe e salada. Tudo bem saboroso, caseiro, com tempero simples e gostoso, mas destaque mesmo é para o pirão de peixe. Talvez o mais próximo ao tradicional comida em casa que eu tenha experimentado até agora, feito sem tomate ou coloral pra dar cor, com caldo de peixe puro e o tom esverdeado se dá pela quantidade industrial de cheiro-verde. Uma delícia, de ficar repetindo até acabar e pedir outro.

No mais, dois pontos negativos: 1) a demora em que foi servida a comida. O restaurante estava vazio e mesmo assim esperamos mais de 1h para comer e 2) o preço. Comida simples e lugar simples, mesmo que muito saborosos e aconchegantes, pedem preço simples. Nada que justificasse os R$150 pagos pelo almoço que serviu duas pessoas.

Se por um lado a conta foi salgada, pelo outro os 10% cobrados foram mais que justos: o garoto que nos atendeu, Fernando, é um mestre em simpatia e gentileza. Já vi caras formados e pós-graduados nessa difícil tarefa de servir pessoas famintas não terem 10% da gentileza deste rapaz. A grande Florianópolis precisa de caras assim.

No fim, fica a recomendação da visita, se você estiver disposto a pagar o preço um pouquinho mais salgado que o normal. A vista, com certeza, é deslumbrante e ajuda na conta.

E, se não toparmos por nenhuma outro restaurante escondido, zeramos São Miguel. É a primeira Via gastronômica que podemos dizer que já visitamos TODAS as casas.

Careca Petiscos

  • Brigadeiro Eduardo Gomes, 2254. Balneário de São Miguel, Biguaçu/SC.
  • (48) 8428-3410
  • Estacionamento
  • Aceita cartões

Bar do Vadinho: não é manezinho quem nunca comeu lá

Nove em cada dez pessoas que me falam sobre o Bar do Vadinho dizem que o lugar é simples. Simples e saboroso. Não é que o restaurante seja simples. Ele só não tem a mania de sofisticação e grandeza que outras casas têm pra trazer a França, Itália e qualquer comida contemporânea para o seu cardápio. Aliás, o Vadinho não tem cardápio. Um restaurante que não tem cardápio e lota das 11 às 16h é qualquer coisa que queiramos classificá-lo, menos simples.

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Se você for visitá-lo na alta temporada(15/12 à 15/03) até vai se deparar com algum folheto plastificado mostrando algumas opções como o rodízio de lulas, camarões, alguns peixes diferentes, mas de março à dezembro, quando ele abre apenas aos sábados e domingos, o prato da casa é um só.

Pra entender o Bar do Vadinho precisa-se conhecer o próprio. Vadinho é filho de pescadores e fez desse o seu ofício a vida toda. Cresceu pescando nas águas do Sul da Ilha e aos 17 anos de idade já singrava os mares da Bahia até a Argentina em busca de pescado para a indústria. Durante 30 anos fez desse o seu ganha pão, assim como boa parte dos homens e mulheres da sua localidade. A casa onde hoje está o seu restaurante é da própria família há nada menos que 114 anos. Simples sou eu me mudei ano passado e já quero trocar de apartamento. Simples é esta minha alugada morada que é feita do pior tipo de cimento, a casa do Vadinho é feita pedra e tem como argamassa óleo de baleia, artefato comum naquela época.

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Vadinho anda, se veste e fala de forma simples. Mas não é na simplicidade que sua grandeza se traduz. Em poucos minutos e com uma fluidez de um papo muito envolvente ele linka a mesa ao lado, de um casal de mais idade, frequentadores da casa desde sempre com a nossa. “Hoje é a primeira vez deles aqui”, disse ao casal. “Acho que vão gostar e voltar”. O casal confirmou com a serenidade de quem sabe que o simples legado é maior que qualquer palavra.

Mas vamos falar de comida porque se deixar faço que nem o Vadinho: a tarde passa voando e nem notamos que aguardamos uma hora pra uma mesa, e mais algum tempo para recebermos a comida. Isso mesmo, nem notamos que esperamos quase duas horas desde que chegamos até comermos. A casa enche após ao meio-dia e até as quatro da tarde a concorrência é grande. Tudo ali é feito na hora, absolutamente na hora, não há nada pronto. A bem da verdade nem o peixe está congelado, tudo o que é servido é pescado ali por perto. “Eu tenho uma garoupa ali no freezer há quatro meses. Posso fazer, se alguém insistir. Mas prefiro que vocês comam o que eu tenho fresco, que é melhor e ainda é barato”.

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Como disse no início do post o Bar do Vadinho oferece o “prato da casa”. Esse prato custa R$27 por pessoa e pode ser repetido quantas vezes você quiser, embora eu duvide que com a fatura em que é servido alguém consiga, de fato, pedir mais. Na mesa vem: arroz branco, feijão, pirão de caldo de peixe, batata frita, salada mista, peixe frito em postas, filé de peixe à milanesa e “estopa” de arraia, que é uma arraia desfiada ensopada.

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Não sei se devo falar exatamente de cada coisa que é servida, mas poderia definir como “excelente” todos os ítens. O arroz, bem temperado e preparado; o feijão: sal, alho e só; a batata frita que é batata de verdade e não aquelas congeladas de supermercado. Gostinho de batatinha feita em casa; o pirão tem o tempero da minha avó, comfort food na veia; a tal da arraia desfiada, que há tempos não via em nenhum restaurante ilhéu, mais tradicional impossível, é de comer abraçando o Franklin Cascaes.

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O peixe frito em postas era Gordinho. Temperado com sal e bem frito, sequinho, sem excessos de gordura; à milanesa tem o filé de peixe-espada. Esse não dá tempo de agradecer, elogiar ou abraçar ninguém, é pra lamber o prato.

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Tudo, tudo feito ali é gostoso. Tudo o que o Vadinho oferece tem gosto de Florianópolis, pode-se afirmar sem qualquer dúvida que esta comida é a comida do mané, este é o retrato da nossa terra e da nossa cultura. Sem medo nenhum de errar afirmo que é a cara da cidade. Fora dos holofotes, verdade, mas nem por isso menos autêntico.

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O Vadinho também oferece o seu tradicional pastel de camarão. Assim como o restante da comida, tudo caseiro. A exemplo da batata-frita, o pastel tem gosto de feito em casa, muito bem recheado e bordado de camarão, sem mixarias.

Nada disso era simples. Pode parecer simples porque é o que fomos (eu pelo menos fui) ensinado a comer quando pequeno. Cresci chupando espinha de peixe e farinha de mandioca era ítem indispensável na despensa. Mas nenhum ítem deste prato é simples, é comida feita com a complexidade de uma cultura que levou décadas pra ser moldada. Tradição, jeito de preparar os alimentos, temperos que tomaram muito tempo nas mãos habilidosas das cozinheiras pra ficarem do jeito que estão. Simples é aquela comida pronta, aquele salmão congelado que você come num restaurante de meia pataca e que te cobra um rim. Simples é nossa mania de reduzir o que não é rebuscado.

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Já terminávamos a refeição quando o casal da mesa ao lado passou e perguntou: “o que vocês acharam? gostaram da primeira visita?” só consegui pensar que a vida é muito curta para as novas frivolidades gastronômicas. Aquele casal, assim como eu, dirigiu vários quilômetros de São José até o Pântano do Sul e faz isso com bastante frequência porque eles sabem valorizar o que é bom, simples ou não.

Ao Vadinho, essa figura lendária e folclórica do Sul da Ilha, vida longa para que dê tempo de todos vocês, meus leitores, conhecê-lo e se tornarem assíduos do que julgo uma das melhores experiências gastronômicas que já tive na vida. Simples assim.

Bar do Vadinho

  • Rua Manoel Vidal, 305. Pântano do Sul, Florianópolis.
  • (48) 3237-7305
  • Aceita cartões