Arquivo da tag: camarões

Spice Garden: a incessante busca pelas especiarias

As viagens marítimas de Portugal em busca das especiarias indianas acabaram dando mais resultados que simplesmente diminuir o custo e os intermediários dos produtos que buscavam abastecer o velho mundo. Como a Garmin ainda não havia sido fundada naquela época, e talvez pelo excesso do vinho do Porto consumido dentro das naus, quando deveriam apontar as embarcações rumo ao Cabo da Boa Esperança bons (ou maus) ventos os faziam atracar na América. Foi assim com Américo Vespúcio, Vasco da Gama, Cristóvão Colombo, Pedro Álvares Cabral… Esse último até conseguiu dobrar o Cabo mas o entreveiro foi tão grande deve ter se arrependido. A história esqueceu disso por um bom tempo.

spice-garden-indian-cuisine-entrada

A grande magia da globalização é que hoje a Índia vem até os portugueses. Ou melhor, no nosso caso, vêm até os descendentes da colônia lusitana, numa cidade onde o tempero parece ser escasso e as especiarias completamente ignoradas.

Pra comer no Spice Garden Indian Cuisine não é necessário ser muito resistente à pimenta. Todos os pratos têm níveis de picância que são escolhidas na hora do pedido: fraca (nenhuma pimenta), média e forte. Já conhecia a casa e sabia que a intensidade média era punk pro meu paladar, pedi um meio termo entre o fraco o médio e fui atendido. E gostei muito do que experimentei.

spice-garden-indian-cuisine-ambiente

A experiência começa num ambiente muito bonito. Simples, sem aquela ostentação que os restaurantes de culinária do sudeste asiático geralmente apresentam. É uma casa grande, muito bonita e iluminada, aconchegante e acolhedora.

A casa não tem garçons, apenas uma maitre e a cozinha. E o atendimento flui de forma excelente, sem problemas de serviço, erros de pedidos ou qualquer transtorno pra quem lá busca um jantar tranquilo.

spice-garden-indian-cuisine-house-platter

Começamos o jantar com as entradas. Escolhemos o House Special Platter, que é o prato especial da casa com uma combinação de pequenas porções de todas as entradas oferecidas. Registre-se que acho maravilhoso quando uma casa oferece isso. Você vai pela primeira vez e experimenta de tudo um pouco, nas próximas você já sabe como quer iniciar o seu jantar.

Ele é composto por Vegetable Samosa e Beef Samosa (pastéis crocantes recheados com legumes e carne, temperados com as especiarias da casa, e servidos com shutney de manga; Spice Garden Mixed Vegetables, que são vegetais variados temperados e fritos; O Keema Naan, o pão tradicional indiano com carne, gengibre e coentro. Acompanha também um molho de iogurte.

spice-garden-indian-cuisine-samosa-beef

O prato é recomendado para duas pessoas e como estávamos em três, também pedimos uma porção extra de Beef Samosa. Mais pasteizinhos crocantes recheados de carne. Mais molho de manga. Mais amor.

Sempre exalto aqui a vantagem de ter amigos que adoram comideria. Não o blog, mas o ato de comer bem. Eles pedem pratos diferentes uns dos outros para que todos experimentem um pouco de cada. Foi o que aconteceu.

spice-garden-indian-cuisine-tandoori-schrimp

A Cátia Andressa (registre-se aqui que o Comideria está bastante feliz pela presença neste review e pelo seu retorno à Ilha de Santa Catarina) é uma dessas e pediu um Tandoori Shrimp. Camarões levemente picantes e assados no forno Tandoor (o forno tradicional indiano), guarnecido com arroz e molho de iogurte. Os camarões são bem crocantes e bem temperados, sequinhos, sem aquele excesso de gordura comum dos que são fritos.

spice-garden-indian-cuisine-beef-curry

A Michele Xavier (registre-se aqui que o Comideria está bastante feliz pela presença no review e pelo início das obras da sua casa, a famosa Minha Casa Container) pediu um Beef Curry. Tal qual o original, o Beef Curry do Spice Garden tem o molho feito com cebola, alho, gengibre, iogurte e especiarias indianas. Novamente recomendo: se você não é resistente à pimenta, peça o fraco. As especiarias já têm o dom de deixar a comida bastante saborosa e com uma leve picância do próprio gengibre, por exemplo.

spice-garden-indian-cuisine-tandoori-chicken

Depois de dar uma garfada no prato das gêmeas mais glamurosas da cidade, veio o meu: Tandoori Chicken. Eu sou extremamente viciado no Tandoori (um mix de temperos que é vendido no Mercado Público de São Paulo, de cor alaranjada) que uso bastante para temperar o frango antes dos preparos que vão caldos/molhos. É claro que não tenho um Tandoor em casa como lá no Spice Garden, e por isso resolvi experimentar o deles. É divino. Primeiro que o prato é feito com a coxa e a sobrecoxa da galinha. Não há nada mais frustante que comer pratos bastante temperados com o peito do animal. Nada mais seco e sem gosto. Segundo que o tempero vem na medida e acertei em aceitar a sugestão da maitre de degustá-lo na inteisdade “fraco à médio”. Nem a ausência de pimenta do fraco, nem o punk-rock do médio. Pimenta na medida, fazendo o paladar explodir em sensações.

spice-garden-indian-cuisine-lassi

Uma outra dica se você é fraco pra pimenta como eu sou (ou era, pois tenho me esforçado): água, vinho, refrigerante, nada disso ajuda a dissipar aquela garfada mais generosa de ardência de pimenta. Há no cardápio um bebida chamada Lassi, que é uma batida de iogurte e leite com frutas. Há a opção salgada, mas recomendo a com frutas pra amenizar o seu paladar em caso de extrema ardência. Eu escolhi hortelã pra não ficar doce demais. A única bebida que consegue absorver a pimenta do seu paladar é o leite, então se é a sua primeira vez, peça Lassi e deixe ali pra algum enrosco.

E a aventura não parou por aqui. Ainda tem as sobremesas. Experimentei duas.

Primeiro o Kheer, o tradicional pudim de arroz indiano, que leva leite, água de rosas e cardamomo. Lembra bastante o arroz doce, embora bem mais aromático e rico em sabores. Cardamomo é vida.

spice-garden-indian-cuisine-sobremesas

Depois o Gajar Ka Halwa. Não sei nem pronunciar isso, mas estava muito saboroso. Fiquei com um pé atrás quando soube que a sobremesa era a base de Cenoura. Cenoura, leite e cardamamo, veja só. Ela também recebe uvas passa que dá o tom adocicado. Vale muito à pena experimentar, é uma sobremesa diferente. Não espere aquelas sobremesas irritantemente doces, de travar a boca de tão açucarada.

O preço é bastante honesto. Tendo em vista o que se cobra no mercado local, digo que chega a ser muito barato. Cerca de R$60 por pessoa (fomos em três) pra sair de lá muito satisfeito com a comida e a experiência como um todo.

Se os portugueses cruzaram o violento Oceano Atlântico em busca de especiarias, você pode ir até a SC-401 fazer o mesmo.

Spice Garden Indian Cuisine

  • Rod. SC-401, 7500. Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis.
  • (048) 3238-2170
  • Aceita cartões
  • Estacionamento

Camarões ao catupiry do Cozinha a Dois

Este post começa numa andança pelo centro florianopolitano quando dentro Mercado Público entre um alô pro Chico da Peixaria e uma corneteada no Janir do Spinoza Bar (ou bar do Alvim) encontrei um quilo de “camarões Laguna”. Camarão viçoso, saboroso, um verdadeiro terroir cheio de histórias e bocas salivantes. Ostenta o nome da cidade que foi berço de uma mulher chamada Anita, e que nos idos da República Juliana, fundada lá mesmo na cidadela catarinense, conheceu Giuseppe, um revolucionário que eternizou não só o nome Anita Garibaldi, mas que foi co-autor de uma das mais belas histórias românticas forjada no meio de uma guerra entre zunidos de bala que até hoje faz suspirar os corações dos apaixonados.

Cozinha a Dois, blog de Soninha e Gastão
Cozinha a Dois, blog de Soninha e Gastão

E com isso tenho o gancho que preciso pra falar de outro casal, apaixonado um pelo outro e também pela cozinha. Soninha é fotógrafa e segundo os amigos é calma e comedida. É a sommerlier da casa, diz o marido, e uma doceira de mão cheia. Já o Gastão é jornalista e professor, gourmand e gourmet, diz a Soninha, e complementa que lida com as idéias como lida com as panelas, por ofício e gosto.

O Cozinha a Dois, de Gastão Cassel e Soninha Vill, é um dos meus blogs preferidos. Não só pela facilidade que eles têm com as palavras que lhes vão brotando como água de manancial (sempre quis referenciar o Martin Fierro numa postagem, check!), mas pela junção da prática na cozinha, do texto e da fotografia. O resultado é um blog cheio de boas histórias, receitas visualmente deliciosas que conseguem mexer tanto com nossa imaginação que chegam ao objetivo de todo blogueiro de gastronomia: estimular olfato e paladar através de uma pataca de bits.

Camarão ao Catupiry
Camarão ao Catupiry

E é deles a inspiração da receita que intitula o post, os camarões com requeijão catupiry estavam nos meus planos desde que eles postaram recentemente no blog. E doravante eu reproduzo como fiz e como ficou, mesmo tendo a nítida certeza de que eu não cheguei nem aos pés dos companheiros de blogagem.

Ingredientes

  • 1kg de camarão médio descascado
  • 1 cebola
  • 1/2 lata de tomates pelados
  • 1 pimentão vermelho
  • 1 pimentão verde
  • 2 dentes de alho
  • 400g de requeijão cremoso
  • Manjericão, alecrim, salsa a gosto

Como fazer

Dependendo do camarão que você for utilizar, e isso vai demandar algum conhecimento do produto que está comprando, recomendo você selar antes. Numa frigideira quente com um pouco de azeite você dá uma leve fritada nos camarões sem tempero, dos dois lados, até ficarem um pouco vermelhos. Reserve.

Numa frigideira grande ou numa panela refogue a cebola bem picada, depois os pimentões e acrescente os dois dentes de alho amassados. Acrescente os camarões na frigideira. Diz o Gastão que é neste ponto que você pode flambá-los. Eu usei um pouco de cachaça amarela pra tal (por isso usei frigideira, mais prático para flambar).

Hora de flambar o camarão
Hora de flambar o camarão

Camarões já flambados, acrescente o tomate pelado triturado, já quase no ponto de molho. Não vai dar tempo de o tomate normal picado cozinhar sob pena de o camarão passar do ponto, então use o pelado e seja feliz. Cozinhe por no máximo três minutos e acerte no sal, tempere com pimenta e coloque as ervas aromáticas.

PS: caso o molho fique muito ralo, você pode engrossar usando a velha tática da farinha de trigo diluída num copo d’água (pra não empelotar) para dar uma engrossada.

Camarões refogados e com molho de tomates pelados
Camarões refogados e com molho de tomates pelados

Num refratário, você “forra” o fundo com um dos potes de requeijão. Por cima desta base você coloca os camarões com o molho que acabou de fazer e cobre com os outros 200g do catupiry. Eu também usei batata-palha, sugestão do próprio Gastão, e parmesão ralada por cima pra ganhar crocância e um pouco de sabor salgado (já que evito ao máximo usar sal nas minhas receitas).

Leve ao forno para gratinar e está feito o carreto! Servi com arroz branco, fiel escudeiro dos pratos com camarão.

Camarões ao catupiry e arroz branco
Camarões ao catupiry e arroz branco

Caso ainda não tenha ficado claro nos primeiros parágrafos, nobre leitor, este post é dedicado ao casal Soninha e Gastão cujo trabalho sou fã e muito admiro. Recomendo fortemente que vocês os visitem e assinem suas postagens através dos feeds rss.