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Otimizando sua ida a Churrascaria – Parte III

Este post faz parte de uma série que fiz no meu blog antigo. É uma brincadeira, cagação de regra barata mas que eu sigo religiosamente quando o assunto é degustar um churrasco.

Cerveja não combina com rodízio de carnes!

Se você está churrasqueando num domingão qualquer em sua casa, com os amigos, tudo bem, beba cerveja. A carne tá no fogo, assando, você serve uma linguicinha, um coração, um galeto que tá junto na brasa. Vai tirando aos pouquinhos, comendo devagar, apreciando o “belisco” e a “gelada”. E não esqueça: se beber, não dirija.

Mas não, agora você está numa churrascaria com diversos tipos de carne na sua frente. Imagine que você está participando daqueles concursos malucos que anualmente vão para as páginas do Guiness Book, onde quem come mais cachorro quente ou bebe mais litros de água vence e ganha um carro 0km. É assim que você deve se portar mediante a vasta variedade de carnes. Você precisa de uma bebida que além do paladar prazeroso, se alie com a salada e o sal de frutas que você certamente vai carregar no bolso para fazer a digestão. É esse o papel da bebida num rodízio. Ajudar a descer e diluir tudo. Vamos à elas.

Água Mineral e derivados

Água mineral deve ser consumida naquela terça-feira a tarde de verão numa praia carioca, após correr quarente e dois quilômetros ininterruptos. Nunca numa churrascaria. NUNCA! A água mineral te deixa com a sensação de estômago estufado, inchado, ela só faz peso. Tá, ela ajuda a descer. Mas não ajuda a diluir. Sobretudo, não te proporciona o ápice da bebida: o arroto. O arroto te dá uma mão incrível na hora de você churrasquear, pois ele realoca no seu estômago toda a comida. É um desfragmentador de HDs versão Epocler.

Obs.: derivados de água mineral como águas saborizadas de limão, laranja ou qualquer fruta cítrica devem ser encaradas única e exclusivamente como Água Mineral. E, como sabemos, você pode usá-la em qualquer momento, menos com churrasco.

Sucos

Apenas para seu filho(a) de 5 anos de idade. Além de ele não comer a mesma ignorância quantidade de carne que você, ele não paga o rodízio. Então vale jogar alguns trocados fora dando à ele um suco de laranja. Sem gelo. A gargantinha dele é sensível.

Cerveja, uísque e vinho

Tem o mesmo efeito da água mineral. Ajuda a descer mas te deixa mais pesado fazendo você desistir do manjar dos deuses bem antes da hora. O vinho é bom para massas. Mas, como vimos no capítulo anterior, nada de massas! Carnes assadas na brasa não combinam com vinho, assim como o vinho, pra mim, não combina com porcaria nenhuma. Bebida de fresco.

Aperitivos

Toda churrascaria que se preze tem uma mesa na recepção onde você pode degustar (veja bem, degustar, não ENTUPIR-SE DE) uma batida de maracujá, coco, uma cachacinha artesanal, etc. Aqui em Florianópolis dizemos que é pra não comer de barriga vazia. Mas, na verdade, usa-se pra abrir o apetite, se é que você já não foi com a apetência de um leão na jaula.

Refrigerantes

Você deve APENAS e tão somente APENAS beber Coca-Cola. Pepsi está liberada em casos de tosse (agindo como xarope, também) ou no caso do restaurante não fornecer Coca. Simples assim.

Resumindo, beberemos:

  • Coca-Cola
  • Pepsi em caso de tosse ou falta de Coca
  • Mais uma Coca-Cola
  • E mais Coca-Cola outra pra cortar o veneno
  • Em casos mais graves de estufamento estomacal, ministrar mais uma lata de Coca-Cola. Se persistirem os sintomas, procure um médico. Mas aguarde na sala de espera bebendo Coca.

Otimizando sua ida a Churrascaria – Parte II

Este post faz parte de uma série que fiz no meu blog antigo. É uma brincadeira, cagação de regra barata mas que eu sigo religiosamente quando o assunto é degustar um churrasco.

Você não está num bandeijão

O subtítulo da segunda parte do tutorial deveria, por si só, dizer tudo. Na verdade, ele diz, mas muitos não irão entender. Quando eu digo que quando você está numa Churrascaria a rodízio e não está num bandeijão, quero dizer a mesma coisa que “Você está aqui para transar!”, caso estivesse fazendo um guia de motéis, tentando te convencer que a qualidade da imagem do programa do Faustão não importa quando você leva sua(seu) parceira(o) para um programa diferente no domingo a tarde. Você foi ao motel para transar, não pra ver TV. E ponto final. É transitivo direto.

As entradas

Toda e qualquer churrascaria que eu conheci é provida de um buffet com pratos quentes e saladas. Você pega um prato, escolhe alguma guloseima e quando volta pra sua mesa, lá tem outro pratinho limpo que você usará para receber as carnes. É muito importante – e não canso em ser prolixo neste ponto – que você faça boas escolhas no buffet, que você seja racional e otimize também as entradas.

Arroz com feijão

Arroz com feijão é gostoso, sim. Adoro comer isso de segunda à sexta, variando para um macarrão com carne moída, ou em grande estilo um bife de patinho com aquele ovo estalado por cima. Na churrascaria é diferente. Você já come arroz e feijão todos os dias. Arroz e feijão te deixam com o bucho cheio satisfeitos para encarar uma tarde de trabalho ou estudos. Mas isso é proibido em churrascaria. Não, eu não sou uma Super Nanny gastronômica. Eu apenas estou te proibindo de comer arroz com feijão em uma churrascaria. Você está pagando pela carne, pratos cheios de amido e sustância te deixam com o estômago cheio, tirando aquela sensação de fome das mais primitivas e elegam as carnes a um segundo plano.

Saladas

Nada de fazer um prato cheio de capim, raízes e vegetais. Você deve pastar fazer isso durante a semana toda, acompanhando o arroz e o feijão do parágrafo anterior. Numa churrascaria você tem imunidade nutricional e você deve SOMENTE colocar três tipos de salada em quantidades moderadas. Um pouco de alface (para ajudar na digestão), uma medida de cebola e outra fica a seu critério, para não deixar este tutorial muito autoritário e militar. Nota: pode ser tomate, a menos que você não se importe com azia.

Frituras e guloseimas

As frituras permitidas são alguns palitinhos de batata-frita e um ou dois pedaços de polenta. Isso você também come a semana toda, geralmente, mas é pra dar um gostinho diferente no prato. Bolinho de arroz, salgadinhos de toda sorte (coxinhas, kibes, rizoles, pastelzinho de vento, etc.), bolinhos irreconhecíveis e feitos com sobras de comida do buffet do dia anterior e o que mais tiver na churrascaria de sua preferência estão sumariamente cortados. Isso também enche o seu estômago e só visa resolver o lado do dono do restaurante. Primeiro e mais importante, porque ele aproveita o resto da comida do dia anterior. Segundo, porque isso te faz comer menos carne, aumentando o lucro do sujeito.

Massas

Não ouse – veja bem -, não ouse colocar no seu prato qualquer tipo de massa. Araruta, araruta, se você colocar Lasanha, Empadão, Talharim ou qualquer outro nome de comida italiana no seu prato, você é um tremendo d’um filho da p…

Sushis

Baiano não entende de churrasco. Baiano entende de acarajé, vatapá, carurú ou qualquer variação destes nomes foneticamente abençoados por vogais repetitivas, mas não entende de churrasco. Fiquei sabendo que existem, na Bahia, churrascarias que servem Sushi e Churrasco ao mesmo tempo. Fiquem a vontade para cometer esta heresia. Mas você (não que eu esteja rogando praga) vai passar três dias e três noites no banheiro cagando as tripas. Sem contar que não aproveita a carne.

Queijos

Outra guloseima muito comum nas churrascarias é o queijo. Vários tipos de queijo para você se entupir e consumir menos carne, ou seja, uma ratoeira. Queijo estragado gorgonzola, queijo suíço, queijo provolone, queijo frito, queijo assado, queijo para todos os tipos de rato. Menos pra você, claro, que selecionará dois tipos e, de cada um deles, colocará no seu pratinho apenas um quadradinho, afim de dar um gostinho. Os diminutivos empregados são propositais.

Recapitulando, o seu prato deve conter:

  • APENAS três tipos de salada. Alface, cebola e outra à gosto.
  • APENAS alguns palitinhos de batata e dois pedacinhos de polenta frita.
  • APENAS dois cubinhos de queijo.

Estão terminantemente proibidos:

  • Massas de qualquer tipo.
  • Sushi
  • Massas
  • Empadão
  • Massas
  • Lasanha
  • Massas
  • Talharim
  • Massas
  • E por último, e não menos importante, qualquer tipo de… Massas.

Obs.: A redundância “massas” é proposital.

Torta de Legumes de Liquidificador

Quem gosta de assar uma boa costela não pode ser muito contra receitas demoradas. Mas eu tenho uma certa preferência por receitas rápidas quando na cozinha. Posso passar horas na frente de um fogo defumando ausências e presenças, matutando ressábios e vendo um cerne de alguma madeira queimando. Mas na cozinha eu sou meio impaciente, eu confesso.

Torta de Legumes de Liquidificador

As tortas de liquidificador são assim. Rápidas, rasteiras, simples, ingredientes que geralmente temos em casa etc. E a base da torta é meio que universal, você pode pegar ingredientes frescos, produzí-los ou mesmo aproveitar sobras. É tipo arroz de forno. A que vamos citar aqui e que eu fiz hoje é de legumes e queijo.

Ingredientes

Massa

  • 2 xícaras de farinha de trigo
  • 3 ovos
  • 1/2 xícara de óleo (soja)
  • 250g de queijo parmesão ralado
  • 1 colher das de sopa de fermento
  • 1 xícara de Leite

Recheio

  • 1 cebola picada
  • 1 tomate picado
  • 1 lata de milho verde
  • 2 cenouras raladas
  • 250g de vagens picadas
  • Azeitonas picadas a gosto
  • 300g de queijo mussarela
Legumes e a cor bonita na torta

Modo de preparo

  • Deixe o forno aquecendo em fogo médio.
  • Junte todos os legumes picados, adicione a azeitona, um pouco de azeite de oliva e tempere com sal. Dê uma mexida pra pegar bem o tempero. Reserve.
  • Ponha no liquidificador todos os ingredientes citados na massa, MENOS o leite. Comece a bater no liquidificador e vá adicionando o leite aos poucos até adquirir uma textura pastosa, de massa (duh!).
  • Pegue uma forma de bolo/torta pequena/média, unte com óleo e despeje 2/3 da massa. Coloque o recheio já misturado e ajeite com uma colher. Coloque o resto da massa cobrindo o recheio, ajeite novamente pra ficar coberto.
  • Ponha para assar. Tempo médio: 30 minutos.
Dê-lhe fogo!

Deixe esfriar e agora é só servir!

Vai um pedacinho aí?

Com a mesma base mas alterando o recheio, já vi se fazerem tortas como esta com restos de frango, carne moída e salsicha. A de salsicha, inclusive, é a de minha preferência. Esta de legumes eu fiz pra parecer que eu sou civilizado e me cuido um pouco. 😉

Arroz de Carreteiro – das carretas ao seu prato original e modificado

Depois do churrasco, não creio que haja outro prato tão tradicional no Rio Grande do Sul quanto o arroz de carreteiro. Ele tem esse nome porque há algumas décadas quando se faziam as carreteadas (cargas de mercadorias de uma cidade pra outra), não existiam, obviamente, recursos pra manter alimentos perecíveis por tanto tempo. O charque, carne salgada e seca à sombra e vento, era a forma que se tinha pra conservar a carne. No caminho, se conseguia arroz e algumas especiarias e essa mistura dava origem então ao prato principal dos carreteiros.

Nobre cardápio crioulo das primitivas jornadas,
Nascido nas carreteadas do Rio Grande abarbarado,
Por certo nisso inspirado, o xiru velho campeiro
Te batizou de “Carreteiro”, meu velho arroz com guisado.
(Arroz de Carreteiro – Jayme Caetano Braun)

Daqui pra frente vou ensinar a simples receita do Arroz de Carreteiro, e que tal dar play numa música regionalista desse povo que inventou o prato pra entrar no clima da receita?

httpv://www.youtube.com/watch?v=Wi_ORewoMDs

Quais os ingredientes de um carreteiro?

Há divergências. Em algunas fontes, não necessariamente bibliográficas, constatamos que o carreteiro original tinha os seguintes ingredientes:

  • 1kg de Charque gordo – carne de segunda ou terceira, salgada e seca à sombra;
  • 1/2kg de Arroz;
  • 1 Cebola grande (ou pimenta);
  • 5 dentes de Alho.

O modo de preparo:

Arroz de carreteiro tomando forma - imagem do amigo @Noel_Guarany
  • Dessalgar o charque na água quente, numa panela de ferro, com duas “lavagens”
  • Reservar a primeira água do dessalgamento para o posterior cozimento
  • Picar uma cebola grande e os dentes de alho, refogar com o charque também picado na panela de ferro
  • Colocar o arroz e dar uma “chapada”, uma pequena e rápida fritada nele nesse refogado
  • Adicionar a água do dessalgamento ainda quente para o cozimento final.
Trempe - suporte para a panela

 Levando-se em consideração de que se utilizavam panelas de ferro e “trempes” aquecidas com lenha de madeira bruta, o cozimento era um tanto quando rápido e consistente, o que dava uma uniformidade no preparo do prato.

De lá pra cá, o que mudou no carreteiro?

Arroz: alguns preferem usar hoje substituir pelo arroz branco.

Charque: hoje se utiliza carnes de primeira, como o coxão mole, por exemplo, ou ainda se faz uso do frescal, que ao invés de um ciclo completo de “secagem”, fazem a famosa meia-cura. Não é tão salgado e ao invés de secar na sombra, é curado no gelo. Alguns aproveitam as sobras de churrasco (daí a entrada da linguiça no carreteiro atual). Há também aqueles que gostam de fritar a carne com cubinhos de bacon para a famosa “puxada” do arroz.

Uma outra possibilidade e que também fica gostoso, é a linguiça crua (no caso de não fazer o carreteiro com sobras de churrasco) cortada em pedacinhos. Ou dá pra tirar da tripa e colocá-la pra fritar junto com o charque na hora de refogar.

Aqui faço um parêntese para um registro histórico, cultural e importante pra entender o que o gaúcho tradicionalista achavava do uso de outras carnes no Arroz de Carreteiro. Jayme Caetano Braun, talvez um dos maiores payadores que cantaram a cultura que o Rio Grande já conheceu, dizia no mesmo poema citado no início do post:

Por isso – meu prato xucro, eu me paro acabrunhado
Ao te ver falsificado na cozinha do povoeiro
Desvirtuado por dinheiro à tradição gauchesca,
Guisado de carne fresca, não é arroz de carreteiro.

Temperos: além dos tradicionais alho e cebola, há quem prefira dar uma cor e um gosto a mais com pedaços de tomates e pimentões.

Complementos: já vi também o carreteiro ser preparado com um toque final de milho verde e cheiro verde, sendo este último o mais comum de se encontrar hoje em dia.

Existe jeito certo e errado de preparo?

Não há jeito dito certo de se fazer um carreteiro. Existe o tradicional, o original, da forma que foi inventado. Mas o gosto varia de pessoa pra pessoa, quis dar estas nuances pra que conhecessem como era feito este prato e qual a importância que ele teve numa determinada classe, época e circunstância das próprias pessoas que inventaram esta iguaria campeira, rude e deliciosa. O que importa é o seu paladar.

E quem vai finalizar este post é o Jayme, da mesma forma que ele finaliza a Payada que dedicou a esta bênção gastronômica deixada pelos carreteiros:

Por isso, quando eu chegar,
nalgum fogão do além-vida,
Se lá não houver comida já pedi a Deus por consolo,
Que junto ao fogão crioulo,

Quando for escurecendo, meu mate-amargo sorvendo,
A cavalo nalgum tronco, escute, ao menos, o ronco
De um “Carreteiro” fervendo.

Bom carreteiro a todos!