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Recanto dos Açores: O chef Nivaldo contra-ataca

Não sou dos xirús que se apegam a nomes de chefs e a sua parentela pra viver uma boa experiência gastronômica. Já foi provado estatisticamente pelo Instituto de Pesquisa Estatística Eu Mesmo que experiência boa é orelhana, não necessariamente tem marca e sinal. Quanto menor a expectativa menor será a chance de dar com os burros n’água.

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Mas existem alguns nomes que investem mais que sua capacidade de pagar um bom marqueteiro, eles colocam acima de tudo o amor pela comida que fazem e a vontade de se superar na frente de qualquer coisa. A comida deles geralmente é um pouco mais cara,  arrumemos um bom advogado e processemos o capitalismo por isso. Mas até que saia a sentença e o processo esteja tramitado em julgado, quem pode viver uma boa experiência que aproveite.

Esse é o caso do Chef Nivaldo e do seu mais novo filho Recanto dos Açores. Lá você não entra pra comer uma montanha de camarão à milanesa que alimenta a quarta geração dos Silva Souza, vive-se uma experiência gastronômica ímpar.

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Começa pelo lugar que é maravilhoso. Na beira da praia do Caminho dos Açores, ali na pacata e simpática Santo Antônio de Lisboa, a vista até onde o olhar alcança é deslumbrante. Em dias de Sol, pode-se jogar uma cachacinha pro santo da preferência e agradecer o Criador por tamanho presente.

A comida é de bater palmas. Começa que Nivaldo é pescador, não é a toa que é um excelente discípulo no Recanto dos Brunidores, que outrora fora comandado por ninguém menos que Narbal Corrêa, citado aqui no meu último post. Com produtos mais frescos impossível, capturados por quem entende do riscado, e com os temperos certos fica mais fácil fazer dar certo.

Se você não conhece a comida deste pescador cozinheiro eu recomendo partir do princípio: menu degustação. É nele que se concentra o conceito de uma casa ou de um Chef, é pelo menu degustação que se conhece a estirpe e a mão de quem produz, estando ele presente na casa ou não. Pedi o Menu Degustação da Casa (R$130 por pessoa) e o resultado vemos a seguir.

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Se você gosta das minhas indicações, guarde este mantra para quando for visitá-los: “eu vou experimentar o patê de ouriços negros. Eu vou experimentar o patê de ouriços negros. Eu vou experimentar o patê de our…” Você olha aquele bicho todo espinhento e pensa: não vai sair coisa boa dali. Mas quando chega à mesa aquele patê com os pães artesanais você quer apenas morrer na beira da praia comendo isso.

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Agora temos mais entradas frias, um carro alegórico da Acadêmicos da Boa Mesa adentrando na passarela do prazer gastronômico. Tartar de garoupa, bem temperado, coberta com caviar de tapioca; ostras e mariscos com molhos especiais do chef, alguns bem cítricos, outros mais curtidos do jeito que a natureza manda.

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Depois uma entrada quente: escondidinho de garoupa com abóbora kabotya. Vá devagar, pequeno padawan, chega bem quente na mesa, pra manter as características e o sabor, uma delícia.

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Mais uma quente: polvo crocante com dadinho de batata-doce.

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E aí vem o prato principal pra fechar com chave de ouro esta comilança desenfreada, que só de escrever este texto já me deixa saudoso do Recanto: Postas de garoupa e camarões Rosa grelhados na brasa, guarnecidos com uma mousseline de batata baroa (batata salsa, batata aipo, mandioquinha, como preferir). Prato bem servido e saboroso. O ponto do peixe é fantasticamente perfeito, é suculento, consistente, de comer rezando. A mousseline dá o toque adocicado e a cremosidade que contrapõe a crocância do camarão. Pediria pra trocar meu Natal por este prato, se pudesse.

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Tem até uma sobremesa à base de sorvete cujo nome não há escrito nem falado, mas é bem boa também.

A conta fechou em cerca de R$150, para uma pessoa, com bebidas. A recomendação é que você visite o quanto antes!

Recanto dos Açores

  • Caminho dos Açores, 1595. Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis.
  • (48) 8432-0500
  • Aceita cartões

 

Kibelândia: casarão velho é que faz comida boa

Na semana em que Alex Atala lidera um movimento pelo definitivo reconhecimento da gastronomia como parte da cultura do país, ainda sofremos com as modificações que boa parte do centro de Florianópolis vem tendo nesta área. Uma rápida caminhada pelo Mercado Público e não vemos mais o Bar do Plácido, o Zezinho, o Goiano, até o Pirão foi-se. Nos seus lugares ficaram grandes redes que venderão fast-food ou coisa parecida. Caldo de cana com pastel de camarão? Nunca mais, nunca mais…

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Mas ainda existem alguns troncos da nossa cultura que ao longo do tempo vêm resistindo à evolução e fazendo continuam não só fazendo comida boa como servindo de ponto de encontro e até turismo da nossa cidade. No baixo-Centro desde a década de 60 a Kibelândia serve seus chopes, cachaças artesanais e, claro, comida árabe. Cabe até um pastelzinho, um xis salada se for o gosto do freguês.

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Olha o recheio!

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Estive lá ontem pra provar os seus quitutes. Comecei pelo começo e como todo bom manezinho não queria “comer de barriga vazia”. Dois kibes fritos, bem fritos e bem rechados, com a mais pura carne bovina e sem firulas. Bem temperado, claro, comida árabe pede um bom tempero. Sequinho sem “embuchar”, saboroso e bem servido. Uma verdadeira preciosidade que custa módicos 7 reais em plena capital mais cara do Brasil pra se comer.

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Depois veio a Refeição Árabe: kibe cru e kibe assado, Baba Ganoush (pasta de beringela), Homus (pasta de grão-de-bico), pasta de queijo e tabule. Este prato tem duas versões: a completa, que serve duas pessoas e que custa 55 reais e o de 35 pilas que é individual, mas parece que serviria um batalhão de tão bem servido (considerando que comi kibes e mais ainda estava por vir).

Não poderia faltar, é claro, o pão-sírio pra acompanhar estas iguarias.

Junto com este prato ainda veio uma salada de alface, tomate, hortelã e cebola, mais limão à vontade pra temperar tudo.

Os kibes todos estavam igualmente saborosos, mas fiquei bastante impressionado com o kibe assado. Dificilmente você acha um kibe assado assim, suculento e no ponto ideal pra apreciar o sabor. Nada daqueles kibes esturricados e secos, pelo contrário, uma maravilha que dispensava até o bom e velho azeite de oliva servido na mesa.

Estacionar no Centro não é das coisas mais fáceis desta vida e havia escutado boas e românticas histórias sobre a Coxinha da Kibelândia. Tive que aproveitar a viagem e pedir uma junto com o pedido, mesmo a atenciosa garçonete tendo me avisado de que era comida demais. – “Deixa que venha!”

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E ela veio.

Coxinha frita na hora, bem crocante, com a massa bastante macia e o recheio suculento. Frango de verdade. Não era frango cenográfico com caldo, não era frango triturado, não era fiapo de galinha. Era FRANGO, de verdade, o bom e velho frango desfiado como está lá nos alfarrábios dos anjos que certamente inventaram esta desapropriada iguaria tupiniquim.

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Olho no lance porque eu cortei ela no meio pra você entender. FRANGO!

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E se um bar fazer a sua própria coxinha — apesar de obrigação — hoje em dia ser motivo de grande respeito, o que dizer de estabelecimentos que fazem a sua própria maionese?

Ela tinha acabado quando pedimos mas prontamente a cozinha iniciou nova produção do molho e prontamente chegou à mesa com seu sabor inconfundível, originalmente da casa, com um toque de mostarda e levemente salgada como deve ser. Deus do céu, eu já havia até esquecido da comida árabe e estava pronto pra sair com uma coxinha de véu e grinalda porta afora em direção à Catedral.

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A brincadeira fechou em R$70 e serviu bem duas pessoas que provavelmente sonharam na noite seguinte com esta belíssima experiência gastronômica.

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  • Rua Victor Meirelles, 98. Centro, Florianópolis.
  • (48) 3879-5429
  • Aceita cartões.

Sorveteria Italiana Monte Pelmo: vale a pena cada quilômetro

O Comideria já esteve na Sorveteria Italiana Monte Pelmo. Não é novidade o que escreverei agora. O outro escriba que bate ponto e que há quase 4 anos me acompanha neste pasquim de gastronomia definiu muito bem este antro da perdição gelada que fica há milhas da casa de quase todo mundo.

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Definir a Monte Pelmo como melhor sorveteria da cidade é correto, na minha humilde opinião. Mas também seria assertivo falar que ela é hors concours. Não existe, ou pelo menos eu ainda não conheço, nenhuma outra sorveteria neste pedaço de rincão que faça sorvete como eles. E aqui não falo da sua qualidade como adjetivo, mas do próprio estilo de se fazer o produto.

Primeiro que os gelados são à base de água. Principalmente os com sabor de alguma fruta (e há sempre preferência pelas frescas, do lugar) onde você nota a completa ausência excessiva de gorduras e leites. Quando você leva uma colherada de sorvete de melancia ou butiá à boca, é somente da fruta o gosto que seu palato identificará. E da fruta, eu quero dizer, a fruta mesmo, in natura, não a essência dela ou o que a indústria acha que seja.

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Tomar sorvete da Monte Pelmo é sorver pequenos pedaços de paraíso e degustar colheradas de prazer a cada instante.

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Ia tentar elencar alguns sabores da minha preferência mas me dei conta que nunca conseguirei provar todos. São mais de cinquenta e a cada nova visita, mesmo tendo a curiosidade quase científica de experimentar novos você se apega facilmente aos antigos, e fica quase com pena de abandoná-los. No meu caso, acontece com o de Butiá, Melancia, Limão com manjericão, pistache…

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O atendimento da sorveteria também é bacana. Ele é quem garante que, mesmo o número de pessoas na fila seja grande, ela flua com certa destreza. Isso porque são eles que te servem o sorvete. Além de agilizar o processo garante que a qualidade do produto se mantenha, uma vez que há química nos sorvetes para mantê-lo em seu formato e textura. Por isso, um atendente vem até o início do buffet, munido com uma bandeja de isopor ou uma casquinha, o que você preferir, e vai montando de acordo com a sua vontade.

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Por fim, você pode escolher cobertura com chantilly e/ou chocolate quente (aquele que vira uma casquinha muito saborosa) e é pesado para pagamento. Simples e rápido!

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É preciso salientar que a Monte Pelmo fica quase no extremo norte da Ilha de Santa Catarina, a milhas e milhas de distância de qualquer ponto da cidade ou região metropolitana. Muita gente é fã do seu produto, e a forma artesanal que é feito, faz com que expansões sejam impossíveis, não há filiais ou quiosques espalhados por aí, então você vai ter que aguardar um pouco na fila pra poder prová-lo, talvez não terá uma mesa sobrando para tal e se tiver poderá ter que fazê-lo no Sol ou no calor.

Mas se conseguir driblar estes detalhes lhes garanto que não se arrependerá. Aqui no blog recebemos diariamente dezenas de comentários sobre os restaurantes que fazemos review em forma de feedback; até dos que não visitamos vez por outra recebemos alguma crítica. A Monte Pelmo entra na lista das unanimidades catarinenses, uma das gourmandises que poderia entrar para o bronze da posteridade e que mesmo com seu sotaque italiano não comum por aqui, já tem mais de Floripa que muito manezinho que fala chiado.

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O preço da Monte Pelmo subiu um pouco desde a última visita. O quilo do sorvete que custava trinta mangos agora sai por R$39. Dois anos pra cá, tenho certeza que nem a inflação total eles corrigiram, proporcionalmente foi muito pouco, tornando-se ainda um preço bastante módico para o tamanho da experiência que é.

Fica o convite! Não perca tempo porque a Monte Pelmo abre somente na temporada de calor e no verão, aos sábados, domingos e feriados, das 11h às 21h. Se você bobear, vai ter que esperar mais um ano pra conhecer o que há de melhor em sorvetes em Florianópolis. Partiu?

Sorveteria Italiana Monte Pelmo

  • Endereço: Rua Brisamar, 360. Ingleses, Florianópolis.
  • Aceita cartões: sim

Bar do Vadinho: não é manezinho quem nunca comeu lá

Nove em cada dez pessoas que me falam sobre o Bar do Vadinho dizem que o lugar é simples. Simples e saboroso. Não é que o restaurante seja simples. Ele só não tem a mania de sofisticação e grandeza que outras casas têm pra trazer a França, Itália e qualquer comida contemporânea para o seu cardápio. Aliás, o Vadinho não tem cardápio. Um restaurante que não tem cardápio e lota das 11 às 16h é qualquer coisa que queiramos classificá-lo, menos simples.

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Se você for visitá-lo na alta temporada(15/12 à 15/03) até vai se deparar com algum folheto plastificado mostrando algumas opções como o rodízio de lulas, camarões, alguns peixes diferentes, mas de março à dezembro, quando ele abre apenas aos sábados e domingos, o prato da casa é um só.

Pra entender o Bar do Vadinho precisa-se conhecer o próprio. Vadinho é filho de pescadores e fez desse o seu ofício a vida toda. Cresceu pescando nas águas do Sul da Ilha e aos 17 anos de idade já singrava os mares da Bahia até a Argentina em busca de pescado para a indústria. Durante 30 anos fez desse o seu ganha pão, assim como boa parte dos homens e mulheres da sua localidade. A casa onde hoje está o seu restaurante é da própria família há nada menos que 114 anos. Simples sou eu me mudei ano passado e já quero trocar de apartamento. Simples é esta minha alugada morada que é feita do pior tipo de cimento, a casa do Vadinho é feita pedra e tem como argamassa óleo de baleia, artefato comum naquela época.

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Vadinho anda, se veste e fala de forma simples. Mas não é na simplicidade que sua grandeza se traduz. Em poucos minutos e com uma fluidez de um papo muito envolvente ele linka a mesa ao lado, de um casal de mais idade, frequentadores da casa desde sempre com a nossa. “Hoje é a primeira vez deles aqui”, disse ao casal. “Acho que vão gostar e voltar”. O casal confirmou com a serenidade de quem sabe que o simples legado é maior que qualquer palavra.

Mas vamos falar de comida porque se deixar faço que nem o Vadinho: a tarde passa voando e nem notamos que aguardamos uma hora pra uma mesa, e mais algum tempo para recebermos a comida. Isso mesmo, nem notamos que esperamos quase duas horas desde que chegamos até comermos. A casa enche após ao meio-dia e até as quatro da tarde a concorrência é grande. Tudo ali é feito na hora, absolutamente na hora, não há nada pronto. A bem da verdade nem o peixe está congelado, tudo o que é servido é pescado ali por perto. “Eu tenho uma garoupa ali no freezer há quatro meses. Posso fazer, se alguém insistir. Mas prefiro que vocês comam o que eu tenho fresco, que é melhor e ainda é barato”.

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Como disse no início do post o Bar do Vadinho oferece o “prato da casa”. Esse prato custa R$27 por pessoa e pode ser repetido quantas vezes você quiser, embora eu duvide que com a fatura em que é servido alguém consiga, de fato, pedir mais. Na mesa vem: arroz branco, feijão, pirão de caldo de peixe, batata frita, salada mista, peixe frito em postas, filé de peixe à milanesa e “estopa” de arraia, que é uma arraia desfiada ensopada.

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Não sei se devo falar exatamente de cada coisa que é servida, mas poderia definir como “excelente” todos os ítens. O arroz, bem temperado e preparado; o feijão: sal, alho e só; a batata frita que é batata de verdade e não aquelas congeladas de supermercado. Gostinho de batatinha feita em casa; o pirão tem o tempero da minha avó, comfort food na veia; a tal da arraia desfiada, que há tempos não via em nenhum restaurante ilhéu, mais tradicional impossível, é de comer abraçando o Franklin Cascaes.

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O peixe frito em postas era Gordinho. Temperado com sal e bem frito, sequinho, sem excessos de gordura; à milanesa tem o filé de peixe-espada. Esse não dá tempo de agradecer, elogiar ou abraçar ninguém, é pra lamber o prato.

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Tudo, tudo feito ali é gostoso. Tudo o que o Vadinho oferece tem gosto de Florianópolis, pode-se afirmar sem qualquer dúvida que esta comida é a comida do mané, este é o retrato da nossa terra e da nossa cultura. Sem medo nenhum de errar afirmo que é a cara da cidade. Fora dos holofotes, verdade, mas nem por isso menos autêntico.

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O Vadinho também oferece o seu tradicional pastel de camarão. Assim como o restante da comida, tudo caseiro. A exemplo da batata-frita, o pastel tem gosto de feito em casa, muito bem recheado e bordado de camarão, sem mixarias.

Nada disso era simples. Pode parecer simples porque é o que fomos (eu pelo menos fui) ensinado a comer quando pequeno. Cresci chupando espinha de peixe e farinha de mandioca era ítem indispensável na despensa. Mas nenhum ítem deste prato é simples, é comida feita com a complexidade de uma cultura que levou décadas pra ser moldada. Tradição, jeito de preparar os alimentos, temperos que tomaram muito tempo nas mãos habilidosas das cozinheiras pra ficarem do jeito que estão. Simples é aquela comida pronta, aquele salmão congelado que você come num restaurante de meia pataca e que te cobra um rim. Simples é nossa mania de reduzir o que não é rebuscado.

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Já terminávamos a refeição quando o casal da mesa ao lado passou e perguntou: “o que vocês acharam? gostaram da primeira visita?” só consegui pensar que a vida é muito curta para as novas frivolidades gastronômicas. Aquele casal, assim como eu, dirigiu vários quilômetros de São José até o Pântano do Sul e faz isso com bastante frequência porque eles sabem valorizar o que é bom, simples ou não.

Ao Vadinho, essa figura lendária e folclórica do Sul da Ilha, vida longa para que dê tempo de todos vocês, meus leitores, conhecê-lo e se tornarem assíduos do que julgo uma das melhores experiências gastronômicas que já tive na vida. Simples assim.

Bar do Vadinho

  • Rua Manoel Vidal, 305. Pântano do Sul, Florianópolis.
  • (48) 3237-7305
  • Aceita cartões

Trattoria Campione: comida excelente em Jurerê sem o preço Internacional

Que bom que existe a Trattoria Campione. Lugares assim me fazem voltar abrir um sorriso de lado a lado na boca do estômago. E mesmo que o trocadilho do blogueiro seja péssimo, serve pra enfatizar o quão ele fica faceiro em achar lugares assim.

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Primeiro porque a casa é bonita. Não poderia ser diferente, fica em Jurerê Internacional. Lá até os mendigos são capa de revista de fofoca, não tem Fusca 62 rodando pelo bairro e até o lixo que raramente se encontra no chão é sacola da Louis Vuitton. Sempre que chego no bairro tomo banho, faço a barba e se for uma ocasião especial até passo Listerine.

Segundo porque o atendimento é bom. Os caras falam pra fora, não andam com um tacape debaixo da bandeja e tudo o que é pedido chega, o que é solicitado não gera necessidade extra de uma oração forte a qualquer orixá pra acontecer.

E por fim porque a comida é da melhor qualidade. E por mais que pareça que precise ter a carteira forrada como qualquer morador deste condomínio semi-fechado (ou semi-aberto, depende do seu otimismo) não precisa. Na Tratoria Campione come-se bem e paga-se o justo, a despeito de alguns lugares mais destacados de lá.

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Ah, outro ponto importante: todos os pratos bem servidos. A começar pela salada que por si só já é um sinônimo de passar fome, lá não é. É tanto verde dentro do prato que a sensação que você tem é que está comprando um terreno da Habitasul. A Instalata Caprese custou R$30 mas serviria muito bem a mesa toda com 4 pessoas.

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Também experimentei a Bruschetta Tradicional. Pão italiano tostado com alho, tomates frescos, mussarela de búfala, pesto de manjericão e lascas de parmesão. Detalhe: tudo muito fresco. Folhas, pães, temperos, molhos…

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Polentinha frita pra ir controlando a ansiedade e fome? Tem também. Muito boa.

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O cardápio principal é basicamente composto de ristos, pastas e algumas carnes e boa parte dele tem opção para 1 ou 2 pessoas. Tive vontade de experimentar o Parmeggiana de Mignon (filé mignon empanado, gratinado com mussarela e molho de tomate, acompanhado de spaghetti ao sugo). Mas também queria comer uma pasta com molho Alfredo. A casa prontamente realizou meu desejo e trocou o spaghetti ao sugo pelo meu preferido. Simples, sem gritaria, torturas, choro e ranger de dentes. Algo raríssimo hoje na ilha, uma simples conta de adição onde 1 + 1 sempre termina em guerra e pancadaria.

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Quase todos os pratos que servem duas pessoas vêm numa travessa bonita, pomposa. O nosso como se tratava de um filé parmeggiana que teria sua qualidade colocada à prova se desta forma fosse servido, veio já no prato, bem montado por sinal. Um filé robusto pra cada lado, uma generosa porção de massa pra cada um. Filé macio, saboroso, bem temperado, no ponto que eu gosto. Molho caseiro, bem feito, não empastado e não cozido demais, frescor dos ingredientes exalando por todo canto. Massa também muito saborosa, fazia tempo que não comia um bom Alfredo aqui no rincão. Prato de se aplaudir de pé e dar um beijo no cozinheiro.

Também tive a honra de comer no prato alheio (blogueiro de comida nunca se presta a Joey Tribbiani) e experimentar o Do Chef, um penne (foi substituído por fettuccine) com camarões, molho à base de manteiga, tomates cereja, creme de leite e rúcula. Prato leve, delicioso, bem generoso na quantidade também.

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A conta fechou em aproximadamente 120 reais por casal, considerando a força de comida listada neste post.

Então agora você já sabe, se estiver comprando um terreno em Jurerê à vista ou, caso seja mais extravagante, comprando um iPhone 6 em 10x, tem um lugar excelente pra se comer bem e pagando pouco. Capice?

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  • Av. das Raias, 400, Sl 11. Jurerê Internacional, Florianópolis.
  • 48 3207-4426
  • Aceita cartões.
  • Estacionamento.

Tainha: instituição mané. Está aberta a temporada!

Quem já esteve numa das praias de Florianópolis numa manhã ensolarada de inverno deve ter visto um velho, com a barba por fazer, chapéu tapeado na cabeça, um Hilton longo aceso na boca e o olhar fixo na arrebentação.  Onda após onda a esperança de ver uma mancha grande escura sob as espumas de sal do mar se aviva, principalmente se na noite anterior o vento Sul assobiou nas frinchas das janelas dos ranchos. Botes que carregam o nome de suas lembranças e homenagens parados sobre toras, e carregados com suas intermináveis redes, esperando a manta aproximar-se. Esperando, sobretudo, aquele mesmo velho, de barbas brancas, abrir o peito num grito de “CERCA!” É quando os pescadores entram no bote e se jogam na praia pra cercar o peixe. É mais um lanço que entra pra contabilidade deste abundante pescado que chega às toneladas abrindo oficialmente a temporada de inverno em Santa Catarina.

Barco Saragaço I aguardando a tainha chegar
Barco Saragaço I aguardando a tainha chegar

A Pesca da Tainha, assim mesmo com letras maiúsculas, é uma instituição mané. Não há no litoral catarinense quem não busque um quinhão destes cardumes, seja pra consumo próprio, seja pra venda local ou pra indústria. A tainha é um dos mais versáteis peixes, e embora seu nome venha do grego e signifique “Boa para frigir”, ela é servida de várias formas e adaptada em várias gastronomias, muito além do tradicional “tainha escalada com pirão d’água”.

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Apesar de ser um ícone catarinense, a Tainha nasce no Rio Grande do Sul, e durante sua primeira fase de vida sobe e desce a Lagoa dos Patos para se alimentar e desovar até que fique adulta. Quando esse tempo chega, e o frio castiga as águas do sul do mundo, as correntes atlânticas a puxam para cima em busca do conforto das águas mais quentes. Grande parte delas fica por aqui, a cada inverno toneladas delas são capturadas e vendidas para todo o país. As ovas, iguaria que hoje é muito valorizada, seja para o consumo direto ou para a fabricação da famosa bottarga di muggine, tem destaque na gastronomia e economia local.

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Há quem olhe, há quem pesque de tarrafa na praia e há quem sai para o mar em busca dos cardumes.

Há também os barcos que não se limitam à areia, atravessam a arrebentação e vão para mais perto das correntes aguardar o cardume e capturá-los antes da chegada na praia. O jornalista e escritor florianopolitano Amaro Seixas Netto disse em 1971: ” Mas as festas da pesca da tainha está por terminar. Os barcos de alto mar pescam as mantas antes que cheguem às redes dos tradicionais, valorosos e históricos pescadores ilhéus. É o progresso, sem dúvida, mas é pena.”* Não poderia estar mais errado, o nobre jornalista, que na década de setenta já tinha medo que este peixe sumisse do prato dos manezinhos. Felizmente, não poderia estar mais errado.

Mesmo os barcos que saem da praia e pescam num mar um pouco mais rebelde têm sua consciência social. O quinhão do santo, que antigamente era dado a São Pedro, padroeiro dos pescadores, para que ele os protegesse no mar, hoje é dado aos moradores e turistas que aguardam a chegada dos barcos nos portos.

Barco Pesca Brasil descarregando as tainhas na Barra da Lagoa
Barco Pesca Brasil descarregando as tainhas na Barra da Lagoa

No último sábado, 31 de maio, 16 dias apenas após a abertura da temporada da pesca da tainha, acompanhei a chegada do barco Pesca Brasil na praia da Barra da Lagoa. O barco veio carregado com cerca de 3.800 peixes, nada menos que 6 toneladas de tainha fresca desembarcando. Após o peixe ser alojado em caixas que iam para um caminhão frigorífico estacionado em frente ao trapiche, alguns peixes que iam sendo separados para doação foram entregues a quem pudesse buscá-lo com os pescadores. Alguns deles, que também têm a sua parte na pesca, seja para consumo ou para negócio, vendiam aos “bisbilhoteiros” de plantão algumas unidades.

6 toneladas de Tainha
6 toneladas de Tainha indo para o mercado

Tainhas gordas, ovadas, frescas. Um convite para uma saborosa refeição neste inverno.

Nos posts seguintes vamos te ajudar a conhecer melhor a Tainha, os seus preparos, as suas receitas, quais são os melhores restaurantes que indicamos para degustá-la de formas tradicionais ou inusitadas. Aqui começa a série Tainha, instituição mané, que tem a ajuda da incansável companheira e jornalista Aline Gunsett e é dedicada à memória dos meus antepassados, que do mar tiravam o seu sustento e fizeram escola.

* A célebre frase do jornalista catarinense tem como fonte o blog Tainha na Rede, que traz um material muito bacana sobre a pesca da tainha.