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Das Ilhas Gregas para a Ilha de SC: obrigado Zakynthos!

Dizem que o tempo faz esquecer. É dos clichês o campeão de vendas para os clarins das horas brabas, aqueles que são incumbidos de consolar as almas desoladas e devastadas por algum contratempo da vida.

Não foi assim com Spiri. Com nove anos apenas embarcou num navio e veio para o nosso país. O Brasil ainda não sabia, talvez Aurélio ainda não soubesse e nem mesmo ela desconfiara, mas Spiri guardava com o tempo de maturar um bom vinho, um bom azeite, sua cultura no idílio — palavra não acidentalmente de origem grega aqui encaixada — de um dia demonstrá-la e preservá-la com um sentimento muito, mas muito puro e atávico.

A entrada do restaurante Ilhas Gregas tem projeção de imagens de apresentações culturais da Grécia
A entrada do restaurante Ilhas Gregas tem projeção de imagens de apresentações culturais da Grécia

Quando fiz a reserva no Restaurante Ilhas Gregas com o Sr. Aurélio, manezinho de grande vivência e cultura, casado com a Chef, recebi uma resposta “que bom, Daniel, esperamos levar você para a Grécia por algumas horas”.

Eu saí do restaurante por volta da meia noite da última sexta-feira mas a Grécia ainda não saiu de mim, Aurélio. Devo confessar-te, meu caro, que o que eu escrever daqui pra frente será um mero relato cuja experiência vivida jamais conseguirá ser demonstrada com palavras, seja no meu alfabeto ou no seu. Como dizia o Apóstolo Paulo ao povo da própria Grécia, em sua carta aos Coríntios: “As coisas do espírito se discernem espiritualmente”. Este ateu que visitou o restaurante de vocês se agarra até na Bíblia pra já pedir as devidas desculpas tanto a vocês quanto aos leitores, na certeza de que só visitando o Ilhas Gregas é que se consegue comprovar realmente o que tento dizer com tantas palavras.

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E antes que este texto se alongue e fique um tanto quanto homérico, volto à Spiri: nasceu na Grécia, na ilha grega de Zakynthos, citada por Homero tanto na Ilíada quanto na Odisséia; e essa Epopéia termina com ela, aos 50 (com cara de 30 e energia de 18), se formando em Gastronomia e abrindo seu primeiro restaurante, cuja comida provavelmente serviria para juntar Ulisses e Penélope.

O Restaurante Ilhas Gregas abre uma vez por semana às sextas, na casa dos proprietários. É necessário fazer reserva, visto que o espaço é limitado e a procura é grande. Em 7 meses de funcionamento, já recebeu cerca de 1000 pessoas para o jantar.

A comida servida é em forma de Menu Degustação. Paga-se a irrisória quantia de R$55 por pessoa e além de uma carta de vinhos excelentes, oferece agora cervejas especiais para quem é do ramo. Refrigerantes e água, claro, pra quem é dos meus.

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Mesmo não sendo consumidor de bebidas alcoólicas, entrei no clima e abri o jantar com uma dose de Ouzo, um licor de anis comum na Grécia, aquele mesmo que Emílio Santiago já eternizou em uma canção.

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O jantar começou com o Couvert. Uma cestinha de pães caseiros e outro mais no estilo francês, com gergelim, acompanhados de uma pasta de berinjela. Outra era de iogurte natural (com segredos da Chef), pepino, alho e azeite de oliva.

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As entradas me deixaram em êxtase. Principalmente a Tiropitakia, que são mini-folhados recheados com queijo branco e espinafre. Saíam bem quentinhos do forno, com recheio cremoso e saboroso, crocante em cada mordida.

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A outra entrada era a Dolmadakia, outra iguaria grega que talvez tenha sido influenciada pela sua estreita relação com os turcos, adaptada para o gosto e ingredientes locais feita de um charutinho de folhas de couve recheados com arroz temperado.

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Os pratos principais são vários. Assim sendo, são colocados aos poucos, para nem esfriar e nem perder a qualidade, em um buffet aclimatado. Vai desde a salada grega (tomates, cebolas, pepino, azeitonas pretas e queijo branco);

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passa por um delicioso Polvo à moda grega, o Paidakia (carne de cordeiro grelhada e batatas douradas ao forno), o Youvetsi (massa risoni, que é um macarrão em forma de arrozinho, com molho à base de pedaços de frango e tomate.

O meu preferido da noite, e não poderia deixar de sê-lo, foi o Moussaká. Desde que ouvi falar do restaurante através da Luciane Daux, e que vi o cardápio, já tive sonhos quase eróticos com esta lasanha de carne bovina moída, com camadas de fatias de berinjela e batatas, coberta com bechamel, enriquecida com ovos e queijo parmesão.

Todos alimentados, é hora de o garçom, o simpático, querido, inteligente e competente Eduardo tirar o pedido das sobremesas. Mas ela não vem de bate-pronto. Há uma surpresa. Meio sem entender muita coisa, vi as luzes serem apagadas e o Aurélio anunciar que a Chef Spiri, que já havia visto na cozinha no andar inferior cantarolando com as suas ajudantes, tal qual a alegria que vemos nos filmes gregos onde a cozinha é um ambiente de se fazer arte e dar boas risadas, subiria para homenagear os seus comensais com uma música.

Perdoem a qualidade da imagem, contraste máximo para a foto no escuro.
Perdoem a qualidade da imagem, contraste máximo para a foto no escuro.

Um som mecânico de violinos e uma doce orquestra tocavam de fundo mostrando que ali começara a sobremesa, enquanto Spiri subia às escadas cantando To Tango Tis Nefelis, música grega (e cantada em grego por ela) que conta uma história muito bonita da mitologia e que mesmo não entendo muito a letra, parece ser entendida só pela emoção de quem canta. É simplesmente impossível tentar descrever a emoção dessa hora, tenho o vídeo gravado aqui, mas não publicarei. Vá você mesmo comprovar o que eu digo, é um momento que vai de cada um vivenciar.

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Sentíamos o doce olfato das sobremesas ficando prontas na cozinha enquanto Aurélio passava de mesa em mesa com uma caixa contendo um prato e um martelo. A mesa elegia alguém que fosse fazer igual aos gregos, quebrar o prato para com o barulho espantar os maus espíritos e provar o desapego material neste bonito ritual de quase 4 mil anos.

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Não tinha romãs, mas tinha mel: a sobremesa que pedi era o Baklavá, um folhado com recheio de nozes, regado com calda à base de mel e canela. Lembrou-me muito um strudel, mas muito mais saboroso e crocante igual.

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Também pude experimentar a Delícia de Zakynthos, um iogurte natural com calda de morangos. O nome já diz.

Há ainda a possibilidade de você levar os congelados para casa. E nos próximos dias você também poderá provar estas delícias numa rede de supermercados bastante famosa na cidade, enquanto não chega o Sábado, dia que, sem dúvida alguma, será o Dia da Comida Grega em Santa Catarina, sendo este o primeiro especializado nestas iguarias que se tem notícia.

O sentimento que fica é inexplicável. O mais perto que posso traduzí-lo dele é “voltei com saudades da Grécia, país que jamais conheci”. E que estas longas palavras tenham sido suficiente para explicar que sim, eu recomendo fortemente uma experiência não só gastronômica, mas de vida no Ilhas Gregas.

Restaurante Ilhas Gregas

  • Endereço: Rua Celso Bayma, 634. Jardim Atlântico, Florianópolis.
  • Telefone: (48) 3240-8232
  • Aceita cartões: sim
  • Estacionamento: sim