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Rancho Açoriano: peixe insosso, conta salgada

Passeávamos pelo Ribeirão da Ilha no domingo em busca de algum lugar pra comer. Entre achados e perdidos, restaurantes que resolveram fechar as portas como o Vila Terceira, onde soubemos apenas in loco do seu encerramento, restaram apenas os já conhecidos para um almoço despretensioso.

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Ainda não conhecia o Rancho Açoriano, uma vez que já havia recebido alguns feedbacks negativos sobre eles, mas precisava ver com meus próprios olhos (e boca) se era aquilo mesmo.

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O restaurante Rancho Açoriano do Ribeirão da Ilha é muito bonito, me impressionei com cada elemento da decoração. Pinturas bonitas nas paredes, iluminação perfeita dos ambientes (salão interno, deck e mezanino) e até os azulejos do banheiro homenageavam nossos colonizadores de forma elegante e simples.

Mas decoração não enche barriga nem agrada o paladar, vamos aos fatos.

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O garçom que nos atendeu já nos alertou que a comida estava demorando cerca de 1h pra ficar pronta, uma vez que a casa estava bastante movimentada. Fiz o meu pedido e também pedi pastéis de berbigão (vôngole, para os forasteiros) de entrada. Não demorou mais que vinte minutos para chegar até a mesa a porção.

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O pastel era saboroso, berbigão bem limpinho mas pouco recheado, quase perdido dentro da massa. O molho tártaro que acompanhava ajudou um pouco no sabor.

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Como cortesia, se você olhar o cardápio atentamente (ninguém avisa), a casa oferece uma dose de cachaça artesanal cujas garrafas recebem o nome do restaurante no rótulo. Se alguém produz uma cachaça boa nessa cidade esse alguém com certeza o faz no Ribeirão!

Mais de uma hora depois, recebemos os pratos. E aí eu fiquei um tanto decepcionado.

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Primeiro porque alguns acompanhamentos, arroz branco e pirão, vieram frios. Como já havia sido um calvário chegar aquela comida, passadas duas horas da tarde, resolvi comer assim mesmo pra poder assistir o Fantástico em casa. A salada era bem boa, higienizada e selecionada.

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Eu havia pedido a Garoupa com Camarão Grelhados e Champignon. Embora decepcionado com o cogumelo que era desses em conserva, afinal se estava pagando nada menos que R$118 num prato pra duas pessoas esperava um cogumelo fresco, o primeiro pedaço da garoupa estava ótima. Eram dois filés e o primeiro pedaço estava com uma crosta levemente crocante e saborosa, bem temperado e agradável (tirando o gosto do vinagre que saía dos cogumelos). Já o segundo pedaço estava totalmente diferente, não deu pra acreditar que foram feitos na mesma hora e pela mesma pessoa. Molenga, gorduroso e extremamente sem sal, precisei pegar um sachê desses que estavam na mesa pra temperar a salada e colocar no peixe. Chego a duvidar se o correto era o segundo pedaço, mais alto e grosso, sem a crocância que eu tanto gostei ou se a primeira impressão era a correta. Fiquei na dúvida, estavam diferentes em textura e sabor.

Vou apostar, numa possível segunda visita, que o segundo pedaço não era padrão.

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O mesmo aconteceu com o prato dos meus amigos, o Congrio Rosa Grelhado Ao Molho Provençal. Um dos pedaços OK, o segundo parecia uma outra comida.

O atendimento era ótimo, embora demorado por conta do movimento da casa. O serviço não dá pra dizer a mesma coisa, visto que era uma correria dentro do salão pra atender todo mundo que dava pra se cansar só de assistir, mas os garçons muito atenciosos e assertivos nos pedidos sempre.

Não consigo acreditar que um restaurante com um ambiente tão lindo e aconchegante, com uma lotação invejável num domingo nublado e frio de Florianópolis cobre tanto e entregue tão pouco, creio que precisarei de uma segunda visita pra confirmar a frustração ou desfazê-la, muito embora fique com bastante medo de pagar R$150 pra ver de novo. Será que eu dei azar?

Restaurante Rancho Açoriano

  • Rua Baldicero Filomeno, 5654. Ribeirão da Ilha, Florianópolis.
  • (48) 3337 0848
  • Aceita cartões
  • Estacionamento: sim

Recanto dos Açores: O chef Nivaldo contra-ataca

Não sou dos xirús que se apegam a nomes de chefs e a sua parentela pra viver uma boa experiência gastronômica. Já foi provado estatisticamente pelo Instituto de Pesquisa Estatística Eu Mesmo que experiência boa é orelhana, não necessariamente tem marca e sinal. Quanto menor a expectativa menor será a chance de dar com os burros n’água.

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Mas existem alguns nomes que investem mais que sua capacidade de pagar um bom marqueteiro, eles colocam acima de tudo o amor pela comida que fazem e a vontade de se superar na frente de qualquer coisa. A comida deles geralmente é um pouco mais cara,  arrumemos um bom advogado e processemos o capitalismo por isso. Mas até que saia a sentença e o processo esteja tramitado em julgado, quem pode viver uma boa experiência que aproveite.

Esse é o caso do Chef Nivaldo e do seu mais novo filho Recanto dos Açores. Lá você não entra pra comer uma montanha de camarão à milanesa que alimenta a quarta geração dos Silva Souza, vive-se uma experiência gastronômica ímpar.

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Começa pelo lugar que é maravilhoso. Na beira da praia do Caminho dos Açores, ali na pacata e simpática Santo Antônio de Lisboa, a vista até onde o olhar alcança é deslumbrante. Em dias de Sol, pode-se jogar uma cachacinha pro santo da preferência e agradecer o Criador por tamanho presente.

A comida é de bater palmas. Começa que Nivaldo é pescador, não é a toa que é um excelente discípulo no Recanto dos Brunidores, que outrora fora comandado por ninguém menos que Narbal Corrêa, citado aqui no meu último post. Com produtos mais frescos impossível, capturados por quem entende do riscado, e com os temperos certos fica mais fácil fazer dar certo.

Se você não conhece a comida deste pescador cozinheiro eu recomendo partir do princípio: menu degustação. É nele que se concentra o conceito de uma casa ou de um Chef, é pelo menu degustação que se conhece a estirpe e a mão de quem produz, estando ele presente na casa ou não. Pedi o Menu Degustação da Casa (R$130 por pessoa) e o resultado vemos a seguir.

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Se você gosta das minhas indicações, guarde este mantra para quando for visitá-los: “eu vou experimentar o patê de ouriços negros. Eu vou experimentar o patê de ouriços negros. Eu vou experimentar o patê de our…” Você olha aquele bicho todo espinhento e pensa: não vai sair coisa boa dali. Mas quando chega à mesa aquele patê com os pães artesanais você quer apenas morrer na beira da praia comendo isso.

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Agora temos mais entradas frias, um carro alegórico da Acadêmicos da Boa Mesa adentrando na passarela do prazer gastronômico. Tartar de garoupa, bem temperado, coberta com caviar de tapioca; ostras e mariscos com molhos especiais do chef, alguns bem cítricos, outros mais curtidos do jeito que a natureza manda.

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Depois uma entrada quente: escondidinho de garoupa com abóbora kabotya. Vá devagar, pequeno padawan, chega bem quente na mesa, pra manter as características e o sabor, uma delícia.

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Mais uma quente: polvo crocante com dadinho de batata-doce.

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E aí vem o prato principal pra fechar com chave de ouro esta comilança desenfreada, que só de escrever este texto já me deixa saudoso do Recanto: Postas de garoupa e camarões Rosa grelhados na brasa, guarnecidos com uma mousseline de batata baroa (batata salsa, batata aipo, mandioquinha, como preferir). Prato bem servido e saboroso. O ponto do peixe é fantasticamente perfeito, é suculento, consistente, de comer rezando. A mousseline dá o toque adocicado e a cremosidade que contrapõe a crocância do camarão. Pediria pra trocar meu Natal por este prato, se pudesse.

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Tem até uma sobremesa à base de sorvete cujo nome não há escrito nem falado, mas é bem boa também.

A conta fechou em cerca de R$150, para uma pessoa, com bebidas. A recomendação é que você visite o quanto antes!

Recanto dos Açores

  • Caminho dos Açores, 1595. Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis.
  • (48) 8432-0500
  • Aceita cartões

 

Recanto dos Brunidores: polindo pedras e paladares

Fico entusiasmado quando um restaurante tem história pra contar. Não bastasse até pouco tempo o Recanto dos Brunidores ter sido liderado pelo chef Narbal Corrêa, considerado pelos seus colegas como o cozinheiro que mais conhece de frutos do mar de Florianópolis, o restaurante ostenta este nome porque está num terreno na beira do costão dos Ingleses do Rio Vermelho, ao lado de uma oficina lítica, um museu a céu aberto.

Oficina lítica
Oficina lítica

As oficinas líticas eram os locais onde os grupos pré-coloniais poliam seus objetos de pedra, geralmente utensílios. Para este polimento era utilizada a técnica de brunimento, por isso o nome do restaurante, onde utilizava-se de areia e água em atrito com a rocha (a oficina lítica propriamente dita). Em quase todo o costão sul da praia você pode notar pedras com marcas dos brunidores.

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Agora quem está no comando da cozinha do Recanto é o Nivaldo Souza. Assim como Narbal, é um exímio pescador e conhece as nuances do mar e dos pescados. Sempre que pode traz da própria pescaria os frutos do mar que serão servidos no restaurante. Esse é um detalhe muito importante do Recanto dos Brunidores: é um restaurante simples. Confortável e agradável porém sem muito luxo e requinte. A diferença está no que realmente importa, na comida. A matéria prima utilizada nos pratos é que fazem toda a diferença. Não só os frutos do mar saem da própria água dos Ingleses, como também contam com horta e aquário para a conservação dos ingredientes. Um legítimo membro do slow food no norte da Ilha de Santa Catarina.

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A visita que fiz no domingo ao Recanto dos Brunidores foi fantástica. Há tempos devia uma visita ao restaurante, não só pelo respeito que ele tem e que atiça quem gosta de comer bem, mas também por indicação de vários amigos e leitores (Oi, Ramila!). Mal rompia a aurora nos confins do firmamento, o prenúncio de um dia bonito na capital dos catarinenses me fez saltar da cama mais cedo para a visita. É fácil chegar lá: basta seguir na Estr. Dom João Becker, que dá acesso ao Sul dos Ingleses e que termina na subida para o Santinho e estacionar por ali. Entrando na praia, caminha-se por cerca de 10 minutos até o costão Sul onde está localizado o restaurante.

Mas vamos falar de comida? O cardápio é bem completo, tem praticamente uma opção para cada gosto. Oferece frutos do mar pra todos os paladares. Nas entradas, opções frias e quentes. Pedimos uma de cada.

Ostras Vivas
Ostras Vivas

Nas frias, escolhi as Ostras Vivas. Ostras in natura, sem adição de qualquer tempero, ainda vivas, servidas com pedaços de limão para temperar. Come-se na casca, como toda boa ostra. Mais frescas e saborosas impossível.

Lula à Dorê
Lula à Dorê

Nas quentes, optamos pela Lula à Dorê. Um clássico da culinária ilhoa e muito bem preparada pela cozinha do Nivaldo. Firmes porém macias e muito saborosas.

Camarões Rosa com Creme de Abóbora Seca e Gratinados
Camarões Rosa com Creme de Abóbora Seca e Gratinados

Eu estava com vontade de experimentar o camarão. Então para o prato principal fui de Camarões Rosa com Creme de Abóbora Seca e Gratinados. Este prato acompanha uma porção de arroz branco. Tudo muito simples mas muito bem preparado e temperado, do jeito que o manezinho gosta.

Garoupa e Camarão grelhado com purê de Taiá Trufado
Garoupa e Camarão grelhado com purê de Taiá Trufado

Experimentei também a Garoupa, Camarão Grelhado e Purê de Taiá Trufado. Esse é só mais um exemplo de que a grama do vizinho é mais verde, isso me ocorre com certa frequência, não desmerecendo o meu camarão rosa que estava delicioso também.

Polvo Crocante com Batatas ao Murro
Polvo Crocante com Batatas ao Murro

Deus-me-livre esquecer de citar o Polvo Crocante com Batatas ao Murro. Não comi, mas quem comeu o fez lambendo os beiços. E também manja muito de comida.

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A casa é bastante convidativa. O ambiente é arejado, tem vista para o mar e toda a praia dos Ingleses. Tem lugares muito confortáveis e recomenda-se uma reserva antes.

O atendimento foi perfeito. Trouxe tudo sempre corretamente, desde as bebidas, a atenção com os pedidos e a gentileza em servir-nos. Todos os pratos são preparados na hora e são servidos juntos. Vale a máxima que toda boa comida pode demorar um pouquinho pra ficar pronta.

O preço é equivalente ao que é servido. De primeiro momento achei um pouco salgado, mas no decorrer do serviço e, principalmente, na degustação, a dúvida foi-se junto com as ondas da linda praia que tinha como vista. As entradas, bebidas e a comida custaram cerca de R$95. A taxa de serviço é opcional.

Ademais, não há outra conclusão a não ser convidar você pra fazer este belíssimo passeio ao costão Sul dos Ingleses, conhecer as oficinas líticas e comer no Recanto dos Brunidores. É um programa que agrada toda a família e todos os paladares.

Recanto dos Brunidores

  • Endereço: Costão Sul da Praia dos Ingleses do Rio Vermelho. Florianópolis.
  • Telefone: (48) 9972-2143
  • Horário: De terça à domingo, almoço à partir das 12h e jantar das 18h. Recomenda-se fazer reservas.
  • Aceita cartões: não