Arquivo da tag: pastel

Rancho Açoriano: peixe insosso, conta salgada

Passeávamos pelo Ribeirão da Ilha no domingo em busca de algum lugar pra comer. Entre achados e perdidos, restaurantes que resolveram fechar as portas como o Vila Terceira, onde soubemos apenas in loco do seu encerramento, restaram apenas os já conhecidos para um almoço despretensioso.

rancho-acoriano-entrada

Ainda não conhecia o Rancho Açoriano, uma vez que já havia recebido alguns feedbacks negativos sobre eles, mas precisava ver com meus próprios olhos (e boca) se era aquilo mesmo.

rancho-acoriano-ambiente

O restaurante Rancho Açoriano do Ribeirão da Ilha é muito bonito, me impressionei com cada elemento da decoração. Pinturas bonitas nas paredes, iluminação perfeita dos ambientes (salão interno, deck e mezanino) e até os azulejos do banheiro homenageavam nossos colonizadores de forma elegante e simples.

Mas decoração não enche barriga nem agrada o paladar, vamos aos fatos.

rancho-acoriano-pastel-berbigapo

O garçom que nos atendeu já nos alertou que a comida estava demorando cerca de 1h pra ficar pronta, uma vez que a casa estava bastante movimentada. Fiz o meu pedido e também pedi pastéis de berbigão (vôngole, para os forasteiros) de entrada. Não demorou mais que vinte minutos para chegar até a mesa a porção.

rancho-acoriano-pastel-berbigao-aberto

O pastel era saboroso, berbigão bem limpinho mas pouco recheado, quase perdido dentro da massa. O molho tártaro que acompanhava ajudou um pouco no sabor.

rancho-acoriano-cachaca-artesanal

Como cortesia, se você olhar o cardápio atentamente (ninguém avisa), a casa oferece uma dose de cachaça artesanal cujas garrafas recebem o nome do restaurante no rótulo. Se alguém produz uma cachaça boa nessa cidade esse alguém com certeza o faz no Ribeirão!

Mais de uma hora depois, recebemos os pratos. E aí eu fiquei um tanto decepcionado.

rancho-acoriano-pirao-arroz

Primeiro porque alguns acompanhamentos, arroz branco e pirão, vieram frios. Como já havia sido um calvário chegar aquela comida, passadas duas horas da tarde, resolvi comer assim mesmo pra poder assistir o Fantástico em casa. A salada era bem boa, higienizada e selecionada.

rancho-acoriano-garoupa-grelhada

Eu havia pedido a Garoupa com Camarão Grelhados e Champignon. Embora decepcionado com o cogumelo que era desses em conserva, afinal se estava pagando nada menos que R$118 num prato pra duas pessoas esperava um cogumelo fresco, o primeiro pedaço da garoupa estava ótima. Eram dois filés e o primeiro pedaço estava com uma crosta levemente crocante e saborosa, bem temperado e agradável (tirando o gosto do vinagre que saía dos cogumelos). Já o segundo pedaço estava totalmente diferente, não deu pra acreditar que foram feitos na mesma hora e pela mesma pessoa. Molenga, gorduroso e extremamente sem sal, precisei pegar um sachê desses que estavam na mesa pra temperar a salada e colocar no peixe. Chego a duvidar se o correto era o segundo pedaço, mais alto e grosso, sem a crocância que eu tanto gostei ou se a primeira impressão era a correta. Fiquei na dúvida, estavam diferentes em textura e sabor.

Vou apostar, numa possível segunda visita, que o segundo pedaço não era padrão.

rancho-acoriano-congrio-rosa-provencal

O mesmo aconteceu com o prato dos meus amigos, o Congrio Rosa Grelhado Ao Molho Provençal. Um dos pedaços OK, o segundo parecia uma outra comida.

O atendimento era ótimo, embora demorado por conta do movimento da casa. O serviço não dá pra dizer a mesma coisa, visto que era uma correria dentro do salão pra atender todo mundo que dava pra se cansar só de assistir, mas os garçons muito atenciosos e assertivos nos pedidos sempre.

Não consigo acreditar que um restaurante com um ambiente tão lindo e aconchegante, com uma lotação invejável num domingo nublado e frio de Florianópolis cobre tanto e entregue tão pouco, creio que precisarei de uma segunda visita pra confirmar a frustração ou desfazê-la, muito embora fique com bastante medo de pagar R$150 pra ver de novo. Será que eu dei azar?

Restaurante Rancho Açoriano

  • Rua Baldicero Filomeno, 5654. Ribeirão da Ilha, Florianópolis.
  • (48) 3337 0848
  • Aceita cartões
  • Estacionamento: sim

Bar do Boni: boa cerveja e petiscos na beira da Lagoa

Ia começar este post justificando a minha ausência por quase dois meses neste blog, mas é chover no molhado que além dos food trucks das mesmices e hamburguerias que usam o mesmo pão, a mesma carne e os mesmos acompanhamentos de sempre, nada de novo prosperou nesta cidade. Já temos um grande acervo de publicações dos restaurantes que acho relevantes — portanto não dá pra repisar o mesmo rastro, outros ainda preciso visitar e estão na minha lista, mas em resumo minha ausência se deve pela falta de tesão com o cenário gastronômico da cidade neste 2015 de recessão econômica.

bar-do-boni-entrada

No último domingo, porém, fui conhecer o tão comentado Bar do Boni, cujas fotos do Instagram pipocam a cada fim de semana onde o Sol resolve mostrar as caras na Ilha de Santa Catarina.

O Bar do Boni me deixou com sentimentos confusos, mas no fim das contas uma coisa foi compensando a outra.

Por exemplo: o demorado atendimento era compensado com a rapidez que a comida vinha à mesa. Levei pelo menos 20 minutos pra conseguir pedir uma água com gás (marca Cristalina, com um gosto de plástico irritante) e os petiscos, mas assim que pedi, não demorou os 20 minutos até que começasse a comer.

bar-do-boni-elementum-cosa-nostra

A falta de conhecimento do garçom que me atendeu no próprio cardápio, principalmente porque descobri que existia uma cervejaria parceira do bar, a Elementum, somente aos 45 do segundo tempo, quando estava pronto pra desistir da Bierbaum e ficar apenas na água. “Ah, tem uma carta de cervejas, peraí” “Tem essa? Não sei, vou ver” “Quanto custa? ah, é 18, 19… acho que 18! não, 19”. Mas quando chegou a Witbier, a trapalhada foi compensada pelo sabor dessa cervejaria de Novo Hamburgo que ainda não conhecia. Copos adequados, balde de gelo, temperatura e cerveja deliciosa.
bar-do-boni-banda-mike-liga

Tudo paga. Couvert da banda, 10% do garçom, R$10 de estacionamento… (tente estacionar na Lagoa em um domingo de Sol, eu te desafio!). A conta que era pra ficar nos dois dígitos subiu logo aos três com tanto custo agregado. De valor agregado só alguns petiscos, a cerveja já citada e a banda, que compensou na sua apresentação. Mike e a Liga tem um som gostoso, os músicos fazendo por gosto e animando a todos com hits do POP nacional e internacional.

bar-do-boni-pasteis-berbigao-camarao

Até na comida havia compensação: o pastel ou era muito seco (berbigão) ou muito molhado (camarão). O pastel de Berbigão tinha que ficar brigando com a areia do pobre molusco, já o de camarão estava saboroso mas com um molho um pouco ralo, fazendo quem come se sujar todo de vermelho claro. Era bem servido, ao menos, matava a fome da espera.

bar-do-boni-camarao-alho-oleo

Em compensação… o camarão ao alho e óleo é um dos melhores que já comi nestas bandas. Bem temperado, dos grados, com alho de sobra pra fazer jus ao nome (parece óbvio mas não é uma regra na concorrência).

bar-do-boni-bolinho-siri

O bolinho de siri tinha gosto pirão. Não consegui identificar o que dava aquele gosto de farinha ao recheio, mas faltava tempero e o próprio siri, que entre um fiapo e outro dava a graça no quitute.

bar-do-boni-lula-dore

Já em compensação… a Lula a doré estava ótima. Poucos sabem fazê-la crocante e não borrachuda, poucos sabem fritar anéis de lula sem deixá-la seca ou gordurosa. Uma delícia quando acham o meio termo de textura, sabor e crocância. Acompanhava um molho rosê normalzinho e limões tahiti cortados em fatias, algo que não pode faltar jamais em frutos do mar.

bar-do-boni-vista

O certame saiu do empate com a vista privilegiada que tem a casa, à beira da Lagoa da Conceição é difícil sair triste de lá. A vista, as pessoas, o clima de descontração e a energia boa de manezinhos e turistas que frequentam o Bar do Boni deram ao domingo um pouco mais de cor e alegria.

Não acredito que eu seja um fiel cliente por conta dos custos extras que se tem pra ir até lá e encarar o Bar como uma refeição do almoço de domingo. A conta fechou em R$130 (2 cervejas, 1 água, petiscos citados (camarões e lulas eram 1/2 porção) e couvert artístico, mais R$10 por fora pro tiozinho do estacionamento. Mas pra curtir uma noite, ou mesmo uma beberagem com os amigos, já estando na Lagoa, tá valendo. Principalmente se você estiver em ótima companhia!

Bar do Boni

  • Av. das Rendeiras, 2232. Lagoa da Conceição, Florianópolis.
  • (48) 3232-1139
  • Aceita cartões
  • Estacionamento: sim

Marisqueira Sintra: portuguesa e saborosa com vista pro mar

Por ser uma cidade turística os restaurantes de Florianópolis acabam sendo disputados no tapa. Por mais que a crescente de novas casas, principalmente as que florescem no verão e secam no inverno, seja contínua, as mesas ainda são disputada a tapas.

marisqueira-sintra-vista

Para o nativo que enche o saco da muvuca acaba sobrando os dias de semana e pra quem tem horários mais flexíveis sobra a graça de conseguir sentar no deck externo da Marisqueira Sintra, por exemplo, que ainda não havia experimentado pela falta de oportunidade citracitada. E eu queria almoçar com a melhor vista pro mar, evidentemente.

marisqueira-sintra-entrada

Ontem estive lá pra conhecer a comida da chef e proprietária da Marisqueira Sintra, Andreia Arruda de Paula. Confesso que a via gastronômica de Santo Antônio/Sambaqui têm me deixado com os dois pés atrás no quesito qualidade e preço. Ou paga-se demais pela boa comida ou come-se mal, isso quando as duas coisas não estão relacionadas. A Marisqueira Sintra não é um restaurante barato, mas justa foi a contrapartida do preço pago ao que foi servido.

marisqueira-sintra-pastel-bolinhos-bacalhau

Comecei a refeição com bolinhos de bacalhau. Até tive interesse em outras entradas, como as Sardinhas Fritas, algo raro de se ver por aqui, ou algum prato do mexilhões e ostras, mas quis ir devagar até porque almoçava sozinho. Pedi Pastéis de Bacalhau (e aqui bastante atenção, que a descrição do prato explica do que se trata): 4 bolinhos de batata com bacalhau desfiado e temperados. São bolinhos de bacalhau, aqueles comuns que encontra-se em restaurantes portugueses. O que varia são as receitas e temperos e estes que experimentei estavam muito saborosos.

marisqueira-sintra-polvo-lagareiro-cimaComo prato principal fui de Polvo. Poderia ter escolhido um Robalo, o próprio Bacalhau ou camarões, mas estava com saudade de comer polvo. Pedi sugestão ao simpático garçom que atendia no deck externo e ele me recomendou o Polvo à Lagareiro, que é o polvo assado lentamente no azeite, sobre uma cama de batatas ao murro, regado com azeite e alho laminado. Eu particularmente adoro o sabor do alho quando assado, ele deixa de ser intenso e torna-se meio adocicado mas sem perder sua propriedade e aroma que dão um toque muito interessante nos frutos do ar.

marisqueira-sintra-polvo-a-lagareiroVisto de cima o prato parecia fichinha pra um estômago acostumado a grandes orgias gastronômicas, mas de perfil dava pra ver que não seria fácil de encarar. Ele é muito bem servido e se você quiser arriscar e se aprofundar mais nas entradas pode até dividí-lo com alguém.

marisqueira-sintra-baba-cameloPara a sobremesa tinha duas opções: Pudim de leite e Baba de camelo. Que diabos! pensei comigo. A baba de camelo é uma delícia, ainda não havia experimentado. É um dos doces “conventuais” portugueses, daqueles feitos em conventos e mosteiros, tipo os pastéis de nata (de Belém). É feito com doce de leite e batido com claras em neve e cobertos com amendoim picado. O sabor lembra o doce de leite, claro, e caramelo. É doce sem ser enjoativo, é saboroso e leve, embora não queira arriscar quantas calorias eu teria engordado numa dieta de pontos. Poderia, sem dúvida alguma, tornar-me fiel à esta sobremesa.

O atendimento da casa foi perfeito. Não sei como ela se porta com grandes públicos mas o serviço é todo sincronizado, dá gosto de ver o pessoal trabalhando e servindo, com uma destreza de dar inveja na concorrência. Isso sem salientar a educação e gentileza dos garçons, que a todo momento monitoravam as mesas.

A conta fechou em R$103 e eu já estou com vontade de voltar lá pra conferir o restante do menu. Certamente, aquelas sardinhas fritas, por mais simples que sejam, passarão por aqui qualquer hora…

Marisqueira Sintra

  • R. Quinze de Novembro, 147 – Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis.
  • (48) 3234-4219
  • Aceita cartões

Bar do Vadinho: não é manezinho quem nunca comeu lá

Nove em cada dez pessoas que me falam sobre o Bar do Vadinho dizem que o lugar é simples. Simples e saboroso. Não é que o restaurante seja simples. Ele só não tem a mania de sofisticação e grandeza que outras casas têm pra trazer a França, Itália e qualquer comida contemporânea para o seu cardápio. Aliás, o Vadinho não tem cardápio. Um restaurante que não tem cardápio e lota das 11 às 16h é qualquer coisa que queiramos classificá-lo, menos simples.

bar-do-vadinho-externa

Se você for visitá-lo na alta temporada(15/12 à 15/03) até vai se deparar com algum folheto plastificado mostrando algumas opções como o rodízio de lulas, camarões, alguns peixes diferentes, mas de março à dezembro, quando ele abre apenas aos sábados e domingos, o prato da casa é um só.

Pra entender o Bar do Vadinho precisa-se conhecer o próprio. Vadinho é filho de pescadores e fez desse o seu ofício a vida toda. Cresceu pescando nas águas do Sul da Ilha e aos 17 anos de idade já singrava os mares da Bahia até a Argentina em busca de pescado para a indústria. Durante 30 anos fez desse o seu ganha pão, assim como boa parte dos homens e mulheres da sua localidade. A casa onde hoje está o seu restaurante é da própria família há nada menos que 114 anos. Simples sou eu me mudei ano passado e já quero trocar de apartamento. Simples é esta minha alugada morada que é feita do pior tipo de cimento, a casa do Vadinho é feita pedra e tem como argamassa óleo de baleia, artefato comum naquela época.

bar-do-vadinho-vadinho

Vadinho anda, se veste e fala de forma simples. Mas não é na simplicidade que sua grandeza se traduz. Em poucos minutos e com uma fluidez de um papo muito envolvente ele linka a mesa ao lado, de um casal de mais idade, frequentadores da casa desde sempre com a nossa. “Hoje é a primeira vez deles aqui”, disse ao casal. “Acho que vão gostar e voltar”. O casal confirmou com a serenidade de quem sabe que o simples legado é maior que qualquer palavra.

Mas vamos falar de comida porque se deixar faço que nem o Vadinho: a tarde passa voando e nem notamos que aguardamos uma hora pra uma mesa, e mais algum tempo para recebermos a comida. Isso mesmo, nem notamos que esperamos quase duas horas desde que chegamos até comermos. A casa enche após ao meio-dia e até as quatro da tarde a concorrência é grande. Tudo ali é feito na hora, absolutamente na hora, não há nada pronto. A bem da verdade nem o peixe está congelado, tudo o que é servido é pescado ali por perto. “Eu tenho uma garoupa ali no freezer há quatro meses. Posso fazer, se alguém insistir. Mas prefiro que vocês comam o que eu tenho fresco, que é melhor e ainda é barato”.

bar-do-vadinho-file-espada

Como disse no início do post o Bar do Vadinho oferece o “prato da casa”. Esse prato custa R$27 por pessoa e pode ser repetido quantas vezes você quiser, embora eu duvide que com a fatura em que é servido alguém consiga, de fato, pedir mais. Na mesa vem: arroz branco, feijão, pirão de caldo de peixe, batata frita, salada mista, peixe frito em postas, filé de peixe à milanesa e “estopa” de arraia, que é uma arraia desfiada ensopada.

bar-do-vadinho-estopa-arraia-desfiada

Não sei se devo falar exatamente de cada coisa que é servida, mas poderia definir como “excelente” todos os ítens. O arroz, bem temperado e preparado; o feijão: sal, alho e só; a batata frita que é batata de verdade e não aquelas congeladas de supermercado. Gostinho de batatinha feita em casa; o pirão tem o tempero da minha avó, comfort food na veia; a tal da arraia desfiada, que há tempos não via em nenhum restaurante ilhéu, mais tradicional impossível, é de comer abraçando o Franklin Cascaes.

bar-do-vadinho-gordinho-frito

O peixe frito em postas era Gordinho. Temperado com sal e bem frito, sequinho, sem excessos de gordura; à milanesa tem o filé de peixe-espada. Esse não dá tempo de agradecer, elogiar ou abraçar ninguém, é pra lamber o prato.

bar-do-vadinho-prato

Tudo, tudo feito ali é gostoso. Tudo o que o Vadinho oferece tem gosto de Florianópolis, pode-se afirmar sem qualquer dúvida que esta comida é a comida do mané, este é o retrato da nossa terra e da nossa cultura. Sem medo nenhum de errar afirmo que é a cara da cidade. Fora dos holofotes, verdade, mas nem por isso menos autêntico.

bar-do-vadinho-pastel-camarao

O Vadinho também oferece o seu tradicional pastel de camarão. Assim como o restante da comida, tudo caseiro. A exemplo da batata-frita, o pastel tem gosto de feito em casa, muito bem recheado e bordado de camarão, sem mixarias.

Nada disso era simples. Pode parecer simples porque é o que fomos (eu pelo menos fui) ensinado a comer quando pequeno. Cresci chupando espinha de peixe e farinha de mandioca era ítem indispensável na despensa. Mas nenhum ítem deste prato é simples, é comida feita com a complexidade de uma cultura que levou décadas pra ser moldada. Tradição, jeito de preparar os alimentos, temperos que tomaram muito tempo nas mãos habilidosas das cozinheiras pra ficarem do jeito que estão. Simples é aquela comida pronta, aquele salmão congelado que você come num restaurante de meia pataca e que te cobra um rim. Simples é nossa mania de reduzir o que não é rebuscado.

bar-do-vadinho-ambiente

Já terminávamos a refeição quando o casal da mesa ao lado passou e perguntou: “o que vocês acharam? gostaram da primeira visita?” só consegui pensar que a vida é muito curta para as novas frivolidades gastronômicas. Aquele casal, assim como eu, dirigiu vários quilômetros de São José até o Pântano do Sul e faz isso com bastante frequência porque eles sabem valorizar o que é bom, simples ou não.

Ao Vadinho, essa figura lendária e folclórica do Sul da Ilha, vida longa para que dê tempo de todos vocês, meus leitores, conhecê-lo e se tornarem assíduos do que julgo uma das melhores experiências gastronômicas que já tive na vida. Simples assim.

Bar do Vadinho

  • Rua Manoel Vidal, 305. Pântano do Sul, Florianópolis.
  • (48) 3237-7305
  • Aceita cartões

Sabor da Costa: passeio de barco, excelente vista e comida boa

Conhecer a Costa da Lagoa é uma experiência incrível. Senti-me como um turista da minha própria cidade, explorando um lugar desconhecido, muito distante, mas que fica a menos de 30 minutos da minha casa. A Costa da Lagoa é uma região onde o visitante só pode chegar por barco: seja saindo da Ponte da Lagoa da Conceição, seja partindo da Estr. Geral de São João do Rio Vermelho, o caminho mais curto entre um ponto e outro.

sabor-da-costa-barcos

O sol e o calor que fizeram no último sábado foram praticamente um convite da natureza a conhecer a gastronomia daquela região, onde os frutos do mar não poderiam deixar de ser as grandes vedetes. Nem mesmo o vento que batia de través fazia os rústicos barcos, denúncia de um sistema de transporte marítimo ainda precário na Ilha de Santa Catarina, largarem seus destinos.

sabor-da-costa-vista

Dos tantos restaurantes que habitam naquele lugar, fui até o Sabor da Costa. Excelente escolha e sugestão da Aline que sabe onde comer bem. O Jajá, proprietário e assador do restaurante, nos recebeu com uma cachaça das buenas, quase que num ritual de batismo, dos que estréiam com um trago largo pra tirar a poeira da goela.

sabor-da-costa-copinho

Dica: se você pedir, o Jajá autografa e te dá o copo de barro de recordação.

sabor-da-costa-jaja

Por falar em Jajá, não só ele mas todo mundo que atende no Sabor da Costa é bem humorado e faz questão de manter o astral do ambiente pra cima. Entre brincadeiras, piadas e causos, um show à parte da gastronomia é feito ao vivo e sem cobrança de couvert artístico.

sabor-da-costa-pastel

Boa mesmo era a comida. Entramos com estes pastéis de Siri. Não preciso dizer que é frito, né? Pastel assado é coisa de quem vai na churrascaria pra comer salada. O recheio muito bem temperado e molhadinho de um siri refogado com ervas e tomate.

sabor-da-costa-ovas-defumadas

O Jajá havia comentado sobre o seu “Caviar”, e antes de pedir o prato principal pedi um segundo petisco: Ovas de tainha defumadas. Este prato consiste num par de ovas de tainha defumadas e assadas na brasa, servidas com limão cravo e, pasmem, melado de cana orgânica.

Resgatei a minha infância, é coisa de manezinho colocar melado na comida salgada. E que combinação. Não precisei de muito esforço pra comer o prato inteiro que, como entrada, serve bem três pessoas.

sabor-da-costa-badejo

Para o prato principal, escolhemos o Badejo grelhado. Havia a opção da anchova, mas anchova é coisa de turista. Bom é o badejo, peixe carnudo e saboroso, vizinho da garoupa que vive entocado nas pedras.

Assim como as ovas, foram assados na hora, na nossa frente; pudemos sentir o cheiro daquele peixe assando e atiçando, ainda que com o estômago já bem forrado com as entradas, o paladar que insistia em verter muita saliva.

Acompanha o Badejo grelhado uma porção de arroz branco, pirão de caldo de peixe e batatas fritas. Tudo muito saboroso e cumprimento bem o seu papel.

sabor-da-costa-vista2

Além de boa comida e atendimento impecável, dizer que a vista do restaurante é bonita é sacanagem. Nem mesmo o mal humor do dia a dia passa incólume a um restaurante sobre um deck à beira-mar e um dia lindo de sol.

A conta fechou em R$195 para três pessoas, que comeram muito bem e beberam bastante.

Resta o convite: o verão tá chegando, já não faz tanto frio por aqui. Visitar a Costa da Lagoa torna-se obrigação turística. Escolher o Jajá pra te servir o almoço é uma decisão mais que acertada!

Sabor da Costa

  • Endereço: Rua Geral da Costa da Lagoa, s/n. Costa da Lagoa. Florianópolis.
  • Horário: diariamente para o almoço, exceto em caso de mal tempo que impeça as embarcações de chegarem.
  • Telefone: (48) 3335-3070
  • Aceita cartões: sim

Restaurante Pitangueiras: visual e comida boa no Sambaqui

Não costumo dar segundas chances para restaurantes. Se tenho uma experiência ruim com um restaurante é muito possível que eu não volte mais lá. Pode até não virar um review falando dos pontos negativos — e se for só isso nem vira mesmo — mas dificilmente vai ter uma segunda chance.

Financeiramente também é inviável, salvo algumas exceções onde alguns restaurantes nos convidam pra um almoço ou jantar por conta da casa, como divulgação, todas as experiências que eu posto aqui no Comideria são custeadas única e exclusivamente pelo meu bolso. E retornar a um restaurante, principalmente se a conta chega fácil aos três dígitos, fica difícil dar a segunda chance. Até porque se você dá uma segunda, e ela é boa, você tem uma boa e uma ruim, a matemática nos ensina que elas se anulam e você precisaria tirar a prova real com uma terceira visita.

Pitangueiras: foto panorâmica da vista do restaurante, por Luiza Freitas
Pitangueiras: foto panorâmica da vista do restaurante, por Luiza Freitas

Mas existem casos isolados como aconteceu com o Pitangueiras. Há uns dois anos, mais ou menos, estive lá pra almoçar a convite dos meus amigos José Vitor e Luiza Freitas. Além de comer um peixe que deveria ser grelhado na brasa e veio queimado, recebemos um péssimo atendimento e uma demora absurda pra sermos servidos. E por que dou a segunda chance? Era um dia primeiro de janeiro, por volta das 17h, dia atípico do comércio. E se já temos sérios problemas nos restaurantes daqui em dias normais, imagina num feriado destes.

E sábado eu fui lá depois de muito me dizerem o que era óbvio: eu não fui num dia “normal”.

Baden Baden Weiss: R$18
Baden Baden Weiss: R$18

A primeira surpresa foi a bebida. Não sei porque diabos em nenhum restaurante/bar/lanchonete/zona de Florianópolis se acha a Baden Baden Weiss, uma das linhas da cervejaria que mais tem saída. Bebo pouco, mas o pouco que bebo, faço com as trigo. E o Pitangueiras tem. Já mereceu meu respeito.

Pastel de Berbigão (Vôngole)
Pastel de Berbigão (Vôngole). R$3,30

A minha acompanhante nunca havia experimentado um pastel de berbigão. Ela mal sabia o que era berbigão, na verdade, só ligou o nome ao bicho quando citei que era a mesma coisa que vôngole, como é mais conhecido no sudeste. De entrada pedimos dois destes pastéis e mais dois de camarão. Creio que, de toda a experiência, este tenha sido o meu único erro. Não porque era ruim, pelo contrário, os pastéis estavam deliciosos e bem recheados, mas porque a despeito de outros restaurantes de frutos do mar, este era sempre muito bem servido nos pratos principais. Se você pede um prato pra dois, tenha certeza que quatro rinoscerontes famintos podem se alimentar dele.

Linguado Gratinado com Alho Poró e Funghi Porcini
Linguado Gratinado com Alho Poró e Funghi Porcini. R$74

O prato que me chamou a atenção foi um dos que participaram do Brasil Sabor deste ano. Ele acabou sendo incorporado ao cardápio recentemente após este evento de gastronomia e tenho certeza que vai fazer bastante sucesso. É indescritível. O Linguado Gratinado com Alho Poró e Funghi Porcini é uma delícia. São postas generosas e muito macias de Linguado, com camadas de alho poró e cogumelos secos, com um molho muito saboroso.

Acompanharam o peixe uma porção generosa de arroz branco e uma farofa caseira muito boa.

O atendimento foi impecável. Desde o início os garçons, sempre muito simpáticos e atenciosos, trouxeram tudo o que foi pedido sem qualquer erro, nos ajudaram na escolha do prato, conversaram sobre ele, demonstraram total conhecimento não só do menu quanto da carta de cervejas, enfim, atendimento nota dez.

O ambiente é aconchegante. Você pode escolher ficar no salão interno, muito bem decorado com coisas da Ilha, como também pode aproveitar (se for um dia bonito de sol) a área externa e o deck de madeira pra almoçar praticamente em cima do mar e com um dos visuais mais deslumbrantes de Florianópolis.

Vale a visita!

Restaurante Pitangueiras

  • Endereço: Rod. Rafael da Rocha Pires, 2861. Sambaqui, Florianópolis.
  • Telefone: (48) 3335-0398
  • Horário: de quartas-feiras às segundas-feiras, das 11:30h às 0h.
  • Estacionamento: sim
  • Aceita cartões: sim
  • Wifi: sim