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Careca Petiscos: zeramos São Miguel

“Você entra na marginal da BR-101 onde começa o Balneário de São Miguel, tropeça na primeira pedra após a Casa do Peixe e chegou no lugar”.

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Foi mais ou menos assim que conheci o Careca Petiscos, um pequeno restaurante/bar na beira da única praia quase balneável de Biguaçu após receber indicação de que ali serviria boa comida. Isso porque a pequena casa no estilo residencial que abriga o restaurante tem pouca identificação de que ali serve-se comida, há uma pequena inscrição no portão na lateral oposta um aviso de buffet de sorvetes, e é somente entrando no lugar que vemos algumas mesas, e já saindo da casa pelos fundos temos um deck de madeira e, claro, como não poderia deixar de sê-lo, a própria areia da praia.

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Tudo é muito rústico, desde as mesas, cadeiras até os pratos. É fácil ver uma cadeira “pichada” com corretivo (liquid paper), sabendo que aquilo já pertenceu algumas vez alguma escola, ou mesmo um prato com o logotipo da Pizzaria Vó Luzia, falecida líder no ramo no Kobrasol.

Comecei pedindo bebidas e petiscos. Pedi uma 1/2 dúzia de ostras gratinadas e a mesma quantidade ao vinagrete. Substituímos por mariscos ao sermos informados que não teríamos ostras in natura. Ponto positivo: não tem produto fresco, não vende. Gosto de restaurantes que vendem apenas o que acreditam ser bom.

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As ostras não estavam em sua melhor forma, muito magras e perdidas num mar de molho branco sem muito sabor. Apresentação bonita mas o tempero e os ingredientes deixaram um pouco a desejar (punição pra quem, como eu naquele dia, acha que ostra precisa de alguma cobertura. Ostra boa é ostra crua).

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Já os mariscos estavam saborosos, embora a cara deles não pareçam lá essas coisas na foto, mas o vinagrete da casa é delicioso, assim como os moluscos. Prova de que quem vê cara não vê coração.

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Depois veio o prato principal, que optamos por Camarão à Milanesa. Uma robusta porção do crustáceo mais desejado e supervalorizado por estas bandas, fritos na hora e com a farinha que foi empanado bastante temperada. Isso conta bastante: camarão é uma coisa que por si só não tem muito sabor característico, dependendo da espécie usada. É no feitio que você conhece o cozinheiro e eles estavam deliciosos. Ainda vieram molho de maionese e rosê pra acompanhar e dar aquela caprichada no gosto.

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Este camarão é comumente guarnecido de arroz branco, pirão de peixe e salada. Tudo bem saboroso, caseiro, com tempero simples e gostoso, mas destaque mesmo é para o pirão de peixe. Talvez o mais próximo ao tradicional comida em casa que eu tenha experimentado até agora, feito sem tomate ou coloral pra dar cor, com caldo de peixe puro e o tom esverdeado se dá pela quantidade industrial de cheiro-verde. Uma delícia, de ficar repetindo até acabar e pedir outro.

No mais, dois pontos negativos: 1) a demora em que foi servida a comida. O restaurante estava vazio e mesmo assim esperamos mais de 1h para comer e 2) o preço. Comida simples e lugar simples, mesmo que muito saborosos e aconchegantes, pedem preço simples. Nada que justificasse os R$150 pagos pelo almoço que serviu duas pessoas.

Se por um lado a conta foi salgada, pelo outro os 10% cobrados foram mais que justos: o garoto que nos atendeu, Fernando, é um mestre em simpatia e gentileza. Já vi caras formados e pós-graduados nessa difícil tarefa de servir pessoas famintas não terem 10% da gentileza deste rapaz. A grande Florianópolis precisa de caras assim.

No fim, fica a recomendação da visita, se você estiver disposto a pagar o preço um pouquinho mais salgado que o normal. A vista, com certeza, é deslumbrante e ajuda na conta.

E, se não toparmos por nenhuma outro restaurante escondido, zeramos São Miguel. É a primeira Via gastronômica que podemos dizer que já visitamos TODAS as casas.

Careca Petiscos

  • Brigadeiro Eduardo Gomes, 2254. Balneário de São Miguel, Biguaçu/SC.
  • (48) 8428-3410
  • Estacionamento
  • Aceita cartões

Bar do Vadinho: não é manezinho quem nunca comeu lá

Nove em cada dez pessoas que me falam sobre o Bar do Vadinho dizem que o lugar é simples. Simples e saboroso. Não é que o restaurante seja simples. Ele só não tem a mania de sofisticação e grandeza que outras casas têm pra trazer a França, Itália e qualquer comida contemporânea para o seu cardápio. Aliás, o Vadinho não tem cardápio. Um restaurante que não tem cardápio e lota das 11 às 16h é qualquer coisa que queiramos classificá-lo, menos simples.

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Se você for visitá-lo na alta temporada(15/12 à 15/03) até vai se deparar com algum folheto plastificado mostrando algumas opções como o rodízio de lulas, camarões, alguns peixes diferentes, mas de março à dezembro, quando ele abre apenas aos sábados e domingos, o prato da casa é um só.

Pra entender o Bar do Vadinho precisa-se conhecer o próprio. Vadinho é filho de pescadores e fez desse o seu ofício a vida toda. Cresceu pescando nas águas do Sul da Ilha e aos 17 anos de idade já singrava os mares da Bahia até a Argentina em busca de pescado para a indústria. Durante 30 anos fez desse o seu ganha pão, assim como boa parte dos homens e mulheres da sua localidade. A casa onde hoje está o seu restaurante é da própria família há nada menos que 114 anos. Simples sou eu me mudei ano passado e já quero trocar de apartamento. Simples é esta minha alugada morada que é feita do pior tipo de cimento, a casa do Vadinho é feita pedra e tem como argamassa óleo de baleia, artefato comum naquela época.

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Vadinho anda, se veste e fala de forma simples. Mas não é na simplicidade que sua grandeza se traduz. Em poucos minutos e com uma fluidez de um papo muito envolvente ele linka a mesa ao lado, de um casal de mais idade, frequentadores da casa desde sempre com a nossa. “Hoje é a primeira vez deles aqui”, disse ao casal. “Acho que vão gostar e voltar”. O casal confirmou com a serenidade de quem sabe que o simples legado é maior que qualquer palavra.

Mas vamos falar de comida porque se deixar faço que nem o Vadinho: a tarde passa voando e nem notamos que aguardamos uma hora pra uma mesa, e mais algum tempo para recebermos a comida. Isso mesmo, nem notamos que esperamos quase duas horas desde que chegamos até comermos. A casa enche após ao meio-dia e até as quatro da tarde a concorrência é grande. Tudo ali é feito na hora, absolutamente na hora, não há nada pronto. A bem da verdade nem o peixe está congelado, tudo o que é servido é pescado ali por perto. “Eu tenho uma garoupa ali no freezer há quatro meses. Posso fazer, se alguém insistir. Mas prefiro que vocês comam o que eu tenho fresco, que é melhor e ainda é barato”.

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Como disse no início do post o Bar do Vadinho oferece o “prato da casa”. Esse prato custa R$27 por pessoa e pode ser repetido quantas vezes você quiser, embora eu duvide que com a fatura em que é servido alguém consiga, de fato, pedir mais. Na mesa vem: arroz branco, feijão, pirão de caldo de peixe, batata frita, salada mista, peixe frito em postas, filé de peixe à milanesa e “estopa” de arraia, que é uma arraia desfiada ensopada.

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Não sei se devo falar exatamente de cada coisa que é servida, mas poderia definir como “excelente” todos os ítens. O arroz, bem temperado e preparado; o feijão: sal, alho e só; a batata frita que é batata de verdade e não aquelas congeladas de supermercado. Gostinho de batatinha feita em casa; o pirão tem o tempero da minha avó, comfort food na veia; a tal da arraia desfiada, que há tempos não via em nenhum restaurante ilhéu, mais tradicional impossível, é de comer abraçando o Franklin Cascaes.

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O peixe frito em postas era Gordinho. Temperado com sal e bem frito, sequinho, sem excessos de gordura; à milanesa tem o filé de peixe-espada. Esse não dá tempo de agradecer, elogiar ou abraçar ninguém, é pra lamber o prato.

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Tudo, tudo feito ali é gostoso. Tudo o que o Vadinho oferece tem gosto de Florianópolis, pode-se afirmar sem qualquer dúvida que esta comida é a comida do mané, este é o retrato da nossa terra e da nossa cultura. Sem medo nenhum de errar afirmo que é a cara da cidade. Fora dos holofotes, verdade, mas nem por isso menos autêntico.

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O Vadinho também oferece o seu tradicional pastel de camarão. Assim como o restante da comida, tudo caseiro. A exemplo da batata-frita, o pastel tem gosto de feito em casa, muito bem recheado e bordado de camarão, sem mixarias.

Nada disso era simples. Pode parecer simples porque é o que fomos (eu pelo menos fui) ensinado a comer quando pequeno. Cresci chupando espinha de peixe e farinha de mandioca era ítem indispensável na despensa. Mas nenhum ítem deste prato é simples, é comida feita com a complexidade de uma cultura que levou décadas pra ser moldada. Tradição, jeito de preparar os alimentos, temperos que tomaram muito tempo nas mãos habilidosas das cozinheiras pra ficarem do jeito que estão. Simples é aquela comida pronta, aquele salmão congelado que você come num restaurante de meia pataca e que te cobra um rim. Simples é nossa mania de reduzir o que não é rebuscado.

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Já terminávamos a refeição quando o casal da mesa ao lado passou e perguntou: “o que vocês acharam? gostaram da primeira visita?” só consegui pensar que a vida é muito curta para as novas frivolidades gastronômicas. Aquele casal, assim como eu, dirigiu vários quilômetros de São José até o Pântano do Sul e faz isso com bastante frequência porque eles sabem valorizar o que é bom, simples ou não.

Ao Vadinho, essa figura lendária e folclórica do Sul da Ilha, vida longa para que dê tempo de todos vocês, meus leitores, conhecê-lo e se tornarem assíduos do que julgo uma das melhores experiências gastronômicas que já tive na vida. Simples assim.

Bar do Vadinho

  • Rua Manoel Vidal, 305. Pântano do Sul, Florianópolis.
  • (48) 3237-7305
  • Aceita cartões

Bucaneiros: do arroz ao camarão, tudo perfeito!

Há tempos venho explorando mais a culinária do continente catarinense. Se o tempo que morei na Ilha de Santa Catarina foi suficiente para desbravar boa parte do que a gastronomia ilhoa tinha para oferecer, é em terra firme que tenho me surpreendido muito com a diferença de sabores e preços. As vezes encontramos pérolas como o Bucaneiros (ou Bucaneiro, como está na placa na entrada, o proprietário ainda não decidiu), que além de muito barato, oferece comida excelente e em boa quantidade para todos os apetites, do outro lado da baía norte.

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Costumo dizer que restaurantes precisam caprichar tanto numa lagosta quanto num simples pastel de camarão. Fazer com perfeição uma excelente carne e não deixar pra trás uma mera salada. Muita gente não liga pra isso, vai com sede ao pote no prato principal e esquece que está pagando por um almoço completo, onde tudo deve estar a contento, e a mesma grandiosidade de um principal ser refletida num mero arroz.

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O Bucaneiros tem isso. Os acompanhamentos dos principais pratos do restaurante são batatas fritas, salada, pirão de caldo de peixe e a figurinha carimbada do dia-a-dia, o arroz. Lá ele aparece em duas versões: o arroz branco simples e o arroz branco com alho. E por incrível que pareça toda vez que eu vou comer no Bucaneiro eu já começo a salivar pensando no arroz, mesmo antes de fazer a curva no Morro da Bina, antes mesmo de chegar em São Miguel.

Mas obviamente nem só de arroz se faz um restaurante, então vamos aos fatos.

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O couvert do Bucaneiros também é saboroso. Não deixe de experimentar estes pãezinhos que são servidos já na chegada, antes mesmo do pedido ser feito, acompanhados com um molho de maionese da casa. A salada é boa, também, mas domingo não é dia de salada!

O cardápio da casa é composto por uma seção de Aperitivos, onde você pode comer desde um camarão à milanesa, mariscos, lulas e peixe nos seus mais diversos preparos, além de uma seção de pratos principais à base de Camarão e Peixes. Também tem pratos com carne e frango para os que não comem ou não estejam a fim de frutos do mar, os famosos chatos de galocha que acompanham aventuras gastronômicas sem manjar dos paranauê.

Enquanto saboreava o couvert pedi uma caipirinha. Drinks não são o forte deles, ela estava ácida demais e muito forte, mesmo pra quem já está acostumado com o sabor da cachaça. Valeu pela ingestão exclusiva da cachaça que, segundo o manezinho, serve pra cortar o “veneno” dos frutos do mar.

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Como prato principal pedi o Linguado ao Molho de Camarão. Deveria ter pedido meia porção, este humilde prato serve nada menos que 4 pessoas famintas após uma prisão em uma solitária por três semanas. Peixe à milanesa bem fritinho e no ponto certo, casquinha crocante e com um delicioso e bem temperado molho de camarão por cima.

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Havia pedido também a Maionese de Camarão que embora estivesse no cardápio de saladas não agrada nutricionistas como tal, mas eu fiz a minha parte. Essa eu fui inteligente e pedi meia porção que seguramente serve duas pessoas nas mesmas condições famélicas.

Batatas cozidas na medida certa, com o mesmo molho de maionese caseira acima citado e camarões médios cozidos e crocantes, mesmo sem casca, pra manezinho nenhum botar defeito.

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Como se tudo isso ainda não bastasse pra empanzinar o vivente, um buffet com sobremesas típicas da nossa região, contendo doces e frutas era servido gratuitamente para todos os comensais. Provem o pudim de leite deles, é uma delícia!

A conta fechou por volta de R$130 e poderia ter sido bem mais em conta caso não tivéssemos pedido comida para um batalhão.

E a digestão foi feita vendo as escunas chegarem e partirem no trapiche desta praia, lotadas de pessoas que assim como nós estavam em busca de excelente comida.

Restaurante Bucaneiro

  • Endereço: Rua Brigadeiro Eduardo Gomes, s/n. Balneário de São Miguel, Biguaçu/SC.
  • Aceita cartões: sim
  • Estacionamento: Sim

Restaurante do Tonho, comida boa com as bênçãos da Nossa Senhora da Piedade

O município de Governador Celso Ramos é um refúgio. Poucos sabem, mas a pouco menos de 50km do centro de Florianópolis, uma pequena cidade cuja economia é movimentada pela pesca possui 23 lindas praias e quase todas elas ainda não sofreram fortes mudanças de balneabilidade após a chegada maciça de moradores e veranistas. Os roteiros geralmente mostram Florianópolis e Balneário Camboriú mas muitos desconhecem que entre estas duas figurinhas carimbadas dos mochileiros existe uma pequena extensão de paraíso separada da BR-101 por estradas de chão batido e alguns morros

Igreja de Nossa Senhora da Piedade
Igreja de Nossa Senhora da Piedade

Uma de suas praias ostenta o nome  da principal atividade do século XVIII. A armação baleeira que ali foi instalada mais a igreja de Nossa Senhora da Piedade, a igreja mais antiga de Santa Catarina e que hoje é patrimônio tombado pelo IPHAN, construída com ajuda do óleo de baleia na argamassa, batizam-na como Armação da Piedade, considerada por este que vos fala um dos lugares mais bonitos em que já visitou na vida.

Sou suspeito pra falar, frequento o município desde que me conheço por gente e quando ainda mal conseguia distinguir os sabores dos alimentos, mas morar na região da Grande Florianópolis e nunca ter ido almoçar no Roda Viva, no Golfinho (onde chegam as escunas saídas de Canasvieiras e que passam pela baía dos golfinhos) e tantos outros restaurantes que estão ali há décadas é uma heresia das mais graves.

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O Tonho tá ali há 30 anos. Tonho nasceu com uma rede na mão e desde sempre foi pescador profissional. Como todos os seus antepassados que povoaram a pequena Armação da Piedade aprendeu a tirar o sustento do que o mar repleto de belezas e riquezas provê. Tudo o que é vendido no Restaurante do Tonho ele mesmo quem pesca, você pode avistar das mesas que ficam na beira da praia as embarcações que ele usa pra pescar na baía, em alto mar ou ainda o bote que utiliza para atender os clientes que chegam de barco.

Tonho indo levar pedidos para as embarcações
Tonho indo levar pedidos para as embarcações

O Restaurante do Tonho encanta já na chegada. De um lado da rua o restaurante, com poucas mesas e a estrutura da cozinha.

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Do outro lado da estrada a orla da praia recebe as mesas e debaixo das árvores você saboreia a paisagem, antes mesmo que chegue o almoço.

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O cardápio é enxuto. Tem opção de carne e frango pra quem não come frutos do mar, mas é de peixes, camarões, ostras e mariscos que ele é composto.

Camarão médio a Milanesa, arroz, pirão de peixe e batatas fritas
Camarão médio a Milanesa, arroz, pirão de peixe e batatas fritas

Pedi um Camarão Médio a Milanesa. O nome é auto-explicativo, mas são camarões médios de verdade e o prato é bem servido para duas pessoas. É empanado e frito na hora, o que garante que a comida está sempre fresca e saborosa. Um ponto positivo é que diferente de alguns concorrentes, este camarão é crocante (sem passar do ponto). O prato não possui acompanhamentos, você pede separadamente (evita desperdícios e barateia a comida, ponto mais que positivo!). Para acompanhar o camarão a milanesa pedi uma porção de arroz (R$7), outra de pirão de peixe (R$7) e uma de batatas fritas (R$10).

Postas de Papa-terra fritas
Postas de Papa-terra fritas

Um outro prato simples mas que é muito delicioso e que sempre como por lá é o Peixe em posta (R$20). Postas de Papa-terra (Betara pra quem é do Sudeste) bem temperadas e fritas, que combinam muito bem com um limãozinho por cima. Pode também ser usado como aperitivo e acompanha sempre uma boa cerveja gelada.

O atendimento é bom, funciona e não demora. Por ser familiar, você é atendido ou pelo próprio Tonho ou por uma de suas netas. Todos os meus pedidos vieram sem qualquer problema e muito rápido. E, melhor que tudo, pode passar bons minutos conversando sobre pescarias, gastronomia, sobre a vida de uma forma geral com o seu Tonho, um senhor muito simpático, disposto, daqueles que fazem você matar a saudade de ter um avô.

Recomendo o passeio e o almoço. Não é longe de Floripa, é barato e você sai enriquecido deste lugar!

Restaurante do Tonho

  • Endereço: Av. Nossa Senhora da Piedade, 337. Governador Celso Ramos, SC.
  • Telefone: (48) 3262-9399
  • Horário: Na baixa temporada abre aos fins de semana para o almoço. Durante o verão abre diariamente.
  • Aceita cartões: Não
  • Estacionamento: Sim

Pirão D’água Escaldado com Linguiça Frita da Vó Dilma

Muito tem se falado do comfort food na blogosfera gastronômica Brasil afora. Como é um conceito relativamente novo, usa-se comfort food pra qualquer comida feita geralmente numa mistura só, consumida normalmente no inverno e servida num recipiente descolado. Mas a idéia do comfort food traz além destes ingredientes, uma comida nutricionalmente rica, as vezes até caloricamente forte, e uma carga emocional atrelada. Estes pratos estimulam a memória gustativa e remetem o seu paladar a lembranças da sua infância, ligam a comida feita pela sua avó ou sua mãe, por exemplo; é mais das vezes nostálgica. Comfort food é uma comida perfeita para uma quarta-feira cinzenta, quando você está triste, num dia em que se lembram as Avós e os Avôs, e fazem você salivar saudades.

Vó Dilma Silva Martins, Vô Ademar "Maca" Pedro Martins e este que vos fala, há quase 30 anos
Vó Dilma Silva Martins, Vô Ademar “Maca” Pedro Martins e este que vos escreve, há quase 30 anos

Fiz esta receita e escrevi este artigo no dia 26 de julho, Dia dos Avós no Brasil e em Portugal, e queria fazer uma homenagem aos meus avós maternos. Naturais de Biguaçu, município da região metropolitana de Florianópolis, criados à base do peixe e farinha e da cultura açoriana, não só me criaram numa mesa farta de sabores da culinária local, apesar de muito pobres, como me ensinaram a dar valor valor pra simplicidade de sua gente. Talvez você não entenda muitas referências deste texto, alguns ditados, palavras, mas usarei-os deliberadamente, como se estivesse na velha mesa de madeira dos Silva Martins, ao pé do fogão.

"Farinha de mandioca cria gente tola." ditado local
“Farinha de mandioca cria gente tola.” ditado local

Uma das coisas que minha vó fazia era o Pirão D’água Escaldado. Ao contrário do pirão de feijão e o feito com o caldo do peixe, o pirão de nylon, como também é conhecido, é feito somente com a farinha de mandioca e água fervente. Alguns temperam com um pouco de sal, misturado na própria farinha, alguns temperos como cheiro verde, pimenta e alfavaca (um dos tipos de manjericão). Come-se acompanhando geralmente uma carne ou embutido frito na banha de porco e utiliza a gordura como cobertura, digamos assim.

Eu dei uma pequena incrementada, mas sem tirar a simplicidade e a carga de boas lembranças que este prato me traz. E o resultado você vê a seguir.

Ingredientes

  • 50g de manteiga sem sal
  • 100g de linguiça defumada
  • 50g de bacon
  • 2 xícaras de farinha de mandioca
  • 1/2 litro de água fervente
  • 1 tablete de caldo de carne
  • um pouco de salsinha

Como fazer

Muito simples. Primeiro você esquenta bem uma frigideira e frita a linguiça Blumenau e o bacon picados junto com a manteiga (você pode, e recomendo fortemente, utilizar banha de porco no lugar da manteiga, caso encontre pra vender na sua região).

Este é o ponto do pirão: cremoso
Este é o ponto do pirão: cremoso

Deixe em fogo médio fritando enquanto num bowl ou prato bem fundo coloca a farinha de mandioca, um pouco de sal, a salsinha picada e vai derramando aos poucos a água fervente com um tablete de caldo de carne dissolvido.

Vá mexendo e colocando a água até atingir a textura de um creme.

Depois é só colocar por cima do pirão a linguiça e o bacon fritos, despeje também um pouco da manteiga. Ela servirá pra dar um gosto a mais no pirão e conforme você vai comendo ela vai “infiltrando” na comida.

"Esse guri tá que nem a Luzia:  não queria, não queria, no fim até as espinhas comia" ditado biguaçuensse
“Esse guri tá que nem a Luzia: não queria, não queria, no fim até as espinhas comia” ditado biguaçuensse

E foi assim que no Dia dos Avós eu lembrei da minha estirpe, forjada na cepa da vida com muita, muita saudade.

Comida simples, gostosa, caseira e desconhecida

Uma das características do crescimento de uma cidade é a profissionalização de suas economias. Na gastronomia não é diferente. Florianópolis, por exemplo, apesar de crescer a passos lentos em números de restaurantes que valem a pena uma visita, já oferece algumas culinárias que há pouco tempo era meio intangível. Em dois toques já fazemos um mapa mental onde podemos comer comida japonesa, mediterrânea, portuguesa, alemã, chinesa, tailandesa, italiana, espanhola e toda a sorte de culinárias mundo afora.

Mas pra atender essas demandas os grandes centros confundem a profissionalização com “afrescalhamento” do seu rol de possibilidades. Há uns dois meses tive vontade de comer algo que era comum na minha infância, uma humilde chuleta na chapa, e me dei conta de que todos as lanchonetes onde isso era possível, fecharam. “Deuzolivre” então procurar um lugar pra se comer um camarão com tempero caseiro, o bom e velho alho e óleo, sem ter um garçom que é ginasta russo dando triplos mortais carpados cuspindo fogo pela venta até chegar a tua mesa com quatrocentos e trinta e oito molhos picantes e suaves que ele tirava da manga após um show pirotécnico de 5 minutos.

Então nas andanças das últimas semanas achei dois restaurantes simples, com atendimento cordial porém simples e resteiro, comida de excelente qualidade, pra matar a fome e agradar o paladar, e ainda por cima poder deixar o cartão do BNDES em casa.

Em Biguaçu, a 20km de Florianópolis, conheci o Rancho do Tchesco, com o Everton.

Rancho do Tchesco
Rancho do Tchesco

Um lugar simples, com instalações rústicas porém aconchegante e receptivo. O Rancho do Thesco serve não só lanches (o famoso xis), como porções de frutos do mar e ela, o carro-chefe da casa, a Chuleta na Tábua:

Chuleta na Tábua
Chuleta na Tábua

Uma porção muito bem servida com 3 ou 4 chuletas pesando no total 1kg, polenta frita, aipim frito, esse pãozinho que é uma delícia, tostado na chapa com a gordura da carne e temperos, farofa caseira e uma deliciosa salada básica.

Salada
Salada

Comemos o Éverton e eu feito leões, mas é uma porção que tranquilamente serve bem 3 pessoas. E o preço não chega nem numa onça, módicos R$38,50 o preço desta iguaria.

O Rancho do Tchesco fica na Rua Julio Bekhauser, 254, no bairro Bom Viver em Biguaçu.

Agora se você prefere um restaurante de frutos do mar, quer comer aquele camarão e um peixinho com o tempero bem caseiro e não quer pagar o preço exorbitante que se paga nas praias de Florianópolis, não tem problema. Na beira do mar, porém na região continental da cidade, existe um restaurante chamado Camarão & Cia. Numa rua quase deserta e pouco visível esconde-se esta maravilha da culinária local, que encontrei com a Fabi Cercal.

Camarão & Cia
Camarão & Cia

Não é difícil você chegar na beira de uma praia e desembolsar 200 reais pra almoçar com seu par. O Camarão & Cia, por ter outra proposta e por não ficar numa badalada praia do litoral floripano, te oferece por bem menos uma refeição tão saborosa quanto. Entre 50 e 80 reais, depende da quantidade de pessoas e ítens na Sequência de Camarão, você come muito bem e com bastante opções na mesa.

Camarão ao bafo, alho e óleo e bolinhos de siri
Camarão ao bafo, alho e óleo e bolinhos de siri

Dois bolinhos de siri, uma porção de ao bafo e camarões ao alho e óleo é o primeiro prato logo após uma salada de entrada.

Camarão Milanesa
Camarão Milanesa
Camarão ensopado
Camarão ensopado

Camarão a milanesa e camarão ensopado também acompanham a sequência.

Filé de linguado ou pescada
Filé de linguado ou pescada

Pra quem não quer só camarão, o prato ainda oferece filé de peixe (linguado ou pescada, você escolhe no pedido) a milanesa.

Acompanhamentos: arroz, feijão e pirão de caldo de peixe
Acompanhamentos: arroz, feijão e pirão de caldo de peixe

E, como não poderia faltar, os acompanhamentos tradicionais: um arroz muito gostoso, bem temperado, feijão e pirão de caldo de peixe.

O Camarão & Cia fica na Rua Ministro Ribeiro Costa, 250 no bairro Estreito, em Florianópolis.