Arquivo da tag: quesadilla

Mexicali: comida mexicana em abundância na Lagoa

Abundância. Era só nisso que eu pensava quando começou a chegar a comida ontem lá no Mexicali. Fizemos, os três membros da mesa, nossos pedidos únicos e mais um prato coletivo pra ir beliscando enquanto falávamos mal de um ou outro membro ausente do grupo. Cabeças gordas, não necessariamente em corpos adiposos, pensam assim. E, entre uma maledicência disparada para a Michele, minha amiga do bom direito, lembrei que numa fase da minha vida gostava de decorar expressões em latim e logo me veio a “quod abundat non nocet”. Quer dizer que o que abunda (junto mesmo, não foi um erro de digitação) não prejudica.

mexicali-entrada

Imagino eu, sei lá, que queira dizer para os juristas que numa situação onde sobram as provas, as testemunhas, melhor usá-las todas que perder algum trunfo. Quanto mais, melhor, traduzindo pro bom português.

Só que na gastronomia isso nem sempre é uma verdade. Sabemos que os restaurantes que trabalham com quantidades exuberantes de alimentos acabam deixando de lado um pouco a qualidade dos mesmos. Focam-se no prazer da gula e esquecem que o paladar também é impotante. É apenas uma questão de público, eu entendo, afinal isso nem foi uma crítica, só uma observação.

Mas não foi o caso do Mexicali. A comida era bem gostosa. Era abundante sem prejudicar a qualidade, era farta sem deixar de lado o prazer de sentir o gosto. Saciava os mais “zolhudos” e ainda agradava quem trouxe pra casa metade de um burrito (acreditem, fui eu).

mexicali-couvert-nachos-salsa

Mas depois falo desse moço. Primeiro chegou na nossa mesa um pequeno couvert de nachos com pico de gallo, salsa picante e sour cream. Já falei aqui algumas vezes do quanto acho generoso da parte da casa oferecer qualquer tira-gosto pra quem chega mais das vezes morto de fome. Alivia aquela tensão, dá tempo pra cozinha se organizar sem que o cliente fique perguntando a que horas vem o prato e ainda faz com que ele já comece a consumir bebidas. É inteligente e bom pra todo mundo.

mexicali-nachos-classico

Aí crescemos o olho. E não dá nem pra alegar que não sabíamos como eram as porçòes porque o prato de nachos já havia circulado no salão pra duas ou três mesas. Sabíamos que ela era grande. Mas o que abunda não prejudica, o importante é não faltar. Pedimos o prato de nachos misto com frango e carne, os molhos já citados, gratinados com muito queijo. E tinha queijo, gente do céu. Que prato! Saboroso, abundante, bem quente pra aquecer daquela noite fria passada.

mexicali-quesadillas

E como disse fizemos nossos pedidos individuais. A Michele, por exemplo, foi de Quesadilla de Cogumelos. Eu dei uma mordida, coisa bem boa! Champignon fresco, queijo mussarella com feijão refrito e pico de gallo. Aliás haja gallo, tem pico em quase tudo! E é bom!

mexicali-tacos-pescados

O Guilherme, o rapagão de quase 3 metros que não refuga comida, foi de Tacos Pescados. Que que é isso? Simples: cubos de linguado empanados com guacamole, sour cream, alface americana e pico de gallo. Não, esse eu não experimentei, vou deixar que o Guilherme comente aqui se achou bom. O prato dele foi o último a chegar e nessas horas que vi que a abundância iria me tirar do páreo logo, logo.

mexicali-burrito-carnitas

O meu burrito chegou antes. Era de “carnitas” de gado (guacamole, pico de gallo, etc). Pensa num burrito recheado de meu deus! Já comi xis menos recheado que este burrito. Não sei como a massa chegou a resistir o peso do recheio, sinceridade. Era pitoresco. Ao mesmo tempo exagerado e saboroso, sem perder o gosto pela quantidade homérica de comida naquele centímetro quadrado de prato.

Não deu pra pedir sobremesa ou sequer um drink. Fomos de águas e refris apenas pra ajudar a natureza a digerir tanta comida. Eu levei meio burrito pra casa e enquanto escrevo este post, pouco antes do meu desjejum, já tô pensando no meu encontro com aquela belezinha enrolada num papel alumínio com um café bem quentinho. É, meus amigos, vida de blogueiro de comida nem sempre é glamurosa.

mexicali-cardapio

A casa é bacana, o atendimento foi perfeito e a conta fechou em pouco mais de 50 mangos per cápita, bebidas e 10% inclusos. Vale a visita, até porque é um lugar mais retirado ali da Lagoa da Conceição e você não precisa ficar tolerando mariachi e tequileiro insuportáveis.

Mexicali

  • Rua Rita Lourenço da Silveira, 125. Lagoa da Conceição, Florianópolis.
  • (048) 3371-9919

Tequilaville: onde não puderes amar, não jantes

tequilavilla-entrada

Se você é fã da Frida Kahlo ou a admira porque ela era uma grande pintora e teve uma história de vida e superação bastante motivantes, então deve saber que a frase “Onde não puderes amar, não te demores” é atribuída à mexicana. Ela não é, infelizmente, uma frase da Frida, embora ela seja uma grande verdade pra muitas coisas na vida, inclusive pra restaurantes. A vida é curta demais pra deixarmos nosso precioso tempo e dinheiro onde não pudermos ser amados.

tequilavilla-frida-kahlo

Estive semana passada no novo restaurante da Rota Gastronômica de Coqueiros, cada vez mais diversificada, conhecendo o novo filho da Chef Bel Hagemann, que também é responsável pelo sucesso do Boteco Zé Mané. E tudo o que pude concluir foi que eu não conhecia AINDA a comida mexicana. Sei que tal coisa só conseguirei indo ao México, mas me aproximei demais dos temperos e sabores que a culinária que o país da América do Norte pode oferecer, pois me senti livre dos guacamoles deveras picantes, dos tequileiros e mariachis fazendo fanfarronices e de um show de estereótipos étnicos que vê-se cá por estas bandas.

tequilavilla-ambiente

O lugar é lindo. Decorado com elementos da cultura mexicana, faz menção à personagens icônicos do México e suas tradições, suas crenças e seu jeito de viver. Não está carregado, é bem iluminado porém aconchegante e passa longe, como disse anteriormente, de estereótipos chatos. Nas vidraças de fundo ou mesmo no espaço ao ar livre é possível ver o belo mar de Coqueiros afinal ele fica na beira da praia.

O atendimento foi impecável do início ao fim. A simpatia e a competência da Sherazad, quem nos atendeu toda a noite, foi incrível. A experiência que havia começado pelo lindo quadro da Frida Kahlo e terminou com excelente comida certamente teve nas mãos e nas explicações da Sherazad que conduziu tudo de forma muito tranquila, funcional e informativa.

Mas não tem jeito: é ela, a comida, sempre a personagem principal de uma experiência gastronômica. E a cada prato, a cada molho, a cada tempero, era mais e mais amor vindo da cozinha. Tanto que nos demoramos, tanto que poderíamos ter ficado ali pra sempre, experimentando cada prato do cardápio.

tequilavilla-couvert

O Tequilaville tem uma idéia interessante de entrada: o Couvert. O nome assim pode remeter a pães com molhos e patês mas neste cardápio ele tem uma função que ajuda no conjunto da obra. Ele é composto de Totopos (ou nachos) e de 8 molhos diferentes. Não vou listar todos, mas vai desde salsa picante, guacamole, chipotle até o famoso pico de gallo e outros molhos deliciosos. E a idéia é que este prato seja o primeiro pois seus molhos e temperos serão úteis em todo o restante da experiência,servindo para temperar e agregar sabor em qualquer coisa que você peça na sequência.

tequilavilla-pimentas

Outra coisa interessante é que os molhos de pimenta são feitos na casa. Habanero ou Jalapeño, tem rótulo do restaurante e em breve também será vendido para quem quiser usá-lo nas suas refeições em casa.

tequilavilla-michelada

O cardápio também conta com uma boa atenção nas bebidas, servindo vários estilos de Margaritas e Coqueteles. Experimentei um que eu gostei bastante e que a minha amiga Michele pediu pelo nome: Michelada. Ele é feito de Cerveja Sol, sangrita (uma espécie de sangria apimentada), suco de limão e borda de sal. Uma delícia, jamais tomei um drink com cerveja desse jeito e achei bom demais.

Parêntese fechado, vamos aos pratos experimentados, e são muitos.

tequilavilla-molote

De entrada eu pedi um Molote. Um bolinho frito de feito com massa de milho, recheado com purê de batatas, linguiça defumada e queijo fresco. Uma delícia!

tequilavilla-ceviche-camarones-melancia

Experimentei também o Ceviche de Camarones y Sandia. Camarões frescos marinados no suco de limão com pedaços de melancia. Broto de milho doce e cebola roxa também deram o seu toque ao prato, que também estava muito gostoso. Jamais havia experimentado melancia, um elemento bastante doce, num ceviche e curti muito.

tequilavilla-taco

Depois fui de Taco Al Pastor. Uma deliciosa tortilha de milho recheada com carne suína em finas lascas e abacaxi grelhados. Um primor de entrada, uma delícia de quitute. Leve, saborosa, fácil de comer e agradável ao paladar, misturando doce e salgado de forma perfeita.

Nota: daqui pra frente não tínhamos mais tanta fome. Ainda tinha algum espaço pra comida, mas se saíssemos de lá estaríamos bem, tranquilos, felizes. Mas não, nós não viemos ao mundo pra brincadeiras e estômago de blogueiro de gastronomia tá aí pra isso mesmo.

tequilavilla-sanduiche

Michele pediu um sanduíche e a mim foi dada a incumbência de comer a outra metade, e ele já veio dividido da cozinha facilitando as coisas. O Cemitas é feito com pão tradicional mexicano, carne à milanesa (rês, porco ou frango e a Michele escolheu porco), queijo fresco, cebola e abacate. O sanduíche é o único do cardápio, mas muito saboroso e bem servido. Bem servido mesmo, é gigante, bem recheado, chega a ser um desafio comê-lo sozinho.

tequilavilla-costilla-cerdo

E eu então experimentei como prato principal a Costilla em Crosta de Chicharrón. E essa, meus amigos, foi a prova final do que digo no título: onde não puderes amar, não jantes. Esta costilla, ou melhor, esta costelinha de porco que é assada lentamente com uma crosta de torresmo, tem molho de ibisco e é acompanhada de abacaxi flambado na tequila, é amor traduzido em um prato. A costela desmancha na boca, a crosta é divina, o molho dá um toque adocicado e intrigante ao prato, o abacaxi assina embaixo a perfeição de comida que é. Chego ao fim deste parágrafo salivando muito, só de lembrar deste prato.

Nota 2: a partir daqui nós já estávamos muito satisfeitos, com o estômago e alma bem alimentados, prontos pra irmos embora. Mas é óbvio que não fomos. É lógico que a sobremesa chamou a atenção, é lógico que a Sherazad nos tentou falando do Leite Frito e ali ficamos. E ali mais uma vez fomos amados e bendizemos à Frida Kahlo.

tequilavilla-leche-frito

Este é o postre que mais me chamou a atenção no cardápio, a sobremesa que há tempos queria experimentar e nunca havia encontrado por aqui. O Leche Frito com Celaya é leite cozido à milanesa acompanhado de um sorvete (na casquinha, pra dar um charme!) de chocolate com pimenta. Dizer que é delícia vai parecer repetitivo, mas culpa não tenho se tudo o que experimentei estava muito gostoso, me deu vontade de voltar e me apaixonar pela casa?

Aliás, falar no cardápio, é importante ressaltar pra quem não está familiarizado com a cozinha mexicana mais tradicional (e menos comercial): a comida tem sim pimenta mas não é ardente, não é uma comida muito quente. Você pode ir adicionando pimenta de duas formas, como já expliquei no início: nos molhos da casa, feitos ali mesmo; nos molhos que acompanham o couvert, alguns deles — principalmente o chipotle — garantem a picância que alguns gostam. Mas você pode ir lá com suas restrições à pimenta e um garçom vai te orientar que a maioria dos pratos têm apenas pimentas aromáticas, que ingrediente comum em qualquer culinária, e você não vai passar mal por isso.

A nossa conta fechou em cerca de R$80 por pessoa, o que acabou sendo mais que barato por tudo o que comemos, bebemos, rimos e aprendemos com a casa. Experiência gastronômica que saiu quase de graça, enriquecedora e, principalmente, repleta de afeto. Te demores, no Tequilaville, porque vale a pena cada prato, cada minuto, cada carinho.

Tequilaville

  • Rua Desembargador Pedro Silva, 2019. Coqueiros, Florianópolis.
  • (48) 9647-0004
  • Aceita cartões